<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-6678341</id><updated>2011-04-22T00:49:38.475+01:00</updated><title type='text'>Confissões de um Atrasado Mental</title><subtitle type='html'>Medalhado nas Paraolimpíadas de Inverno de Salt Lake City em 2002</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://atrasado-mental.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atrasado-mental.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Salustio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06790931641188930562</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://2.bp.blogspot.com/_YQWGFPNE2b0/SYBiMPMz2dI/AAAAAAAAA6g/FePjZp0hUO8/S220/maca2.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>29</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6678341.post-111974320725306861</id><published>2005-06-26T00:45:00.000+01:00</published><updated>2005-06-26T14:25:24.973+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Pride&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje, para variar, não vou falar de políticos, nem de pessoas que aparecem na televisão e não vou estar para aqui a formular teorias absurdas sobre assuntos do dia e tentar impingi-los a leitores incautos. Não. Hoje, vou falar de mim. Para ser mais específico, vou falar das minhas preferências sexuais. Quase consigo imaginar amigos e conhecidos a lerem estas linhas e a deixar cair o queixo no chão de espanto. Receio até que muitos cortem relações comigo depois de saberem desta minha “diferença” que deveria ser pequena e insignificante mas que, por preconceitos que nos são impostos pela sociedade desde que nascemos, acaba por significar muito. De qualquer forma, é tarde demais para voltar atrás e estou farto de carregar este segredo às costas. Mais vale assumir de uma vez por todas e seja o que Deus quiser. Pelo menos, “saio do armário”, como se costuma dizer, e posso finalmente respirar de alívio depois destes anos todos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cá vai disto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Respirar fundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caros leitores, amigos, colegas e afins… eu…&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É mais difícil do que esperava. Mas tem mesmo de ser. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu… gosto de mulheres com mamas grandes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pronto. Já está. Se calhar, deveria ter dito as coisas de maneira mais delicada. Poderia ter dito que sou megalomamófilo, termo que confere um ar mais científico à coisa, mas achei que não valia a pena estar com rodeios e era melhor ser directo e chamar as coisas pelos nomes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muita gente achará que, por se tratar de uma preferência sexual, uma particularidade íntima minha (“íntima mona” talvez fosse mais apropriado à situação, passe a piadinha infantil), não havia necessidade de a tornar pública mas não é assim. Trata-se de uma preferência sexual que traz consigo um estigma. Os megalomamófilos são discriminados pela sociedade e, para combater essa discriminação, compreende-se que seja necessária a coragem de assumir a diferença, fazendo ver que somos pessoas normais, apesar de tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E é dramático. Ter de esconder de toda a gente que, em termos mamários, preferimos as medidas grandes. Ter de suportar teorias que explicam que não há motivo para tanto alarido porque os seios (é assim que lhes chamam os entendidos) são só aglomerados de tecido adiposo, rodeando glândulas produtoras de leite que permitem alimentar os recém-nascidos, como acontece com as fêmeas dos outros mamíferos e ainda que as formas divirjam. Que, fora isso, são só atributos sexuais secundários (Secundários!!! Custa tanto ouvir isto), que não há motivo nenhum para olhar para as grandes e para as pequenas de forma diferente, que os tamanhos maiores trazem problemas de coluna e de gravidade, que isto e que aquilo. A tudo dizemos que sim com o medo de sermos descobertos. Ouvimos as piadas que contam (Sabem aquela dos dois megalomamófilos que vão comprar melões?) e somos os que rimos mais alto para ninguém dar pela vontade que temos de chorar. E, quando somos descobertos, vêm os comentários de cada vez que voltamos as costas e os insultos descarados na rua “Lá vai o mamalhista!), as amizades destruídas, os parentescos renegados, as crises e até os despedimentos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por tudo isto, é necessário engolir os medos e assumir, mantendo o queixo bem levantado. Dizer a toda a gente que sim, que gostamos de mamas grandes e que, não só não temos qualquer problema em assumi-lo, como temos orgulho nisso. É esta a atitude que também eu preciso de tomar a partir de hoje. Só assim conseguiremos todos, a comunidade megalomamófila, conquistar a aceitação e a igualdade de direitos. Só assim, conseguiremos unir esforços para combater a praga que afecta milhões de megalomamófilos em todo o mundo: os implantes de silicone. Talvez um dia consigamos até o que já é realidade noutros países. O direito de adoptar crianças sem receios de que a paternidade megalomamófila desperte tendências semelhantes na criança e a force a achar que uma mama do tamanho de uma maçã reineta é bonita mas se tiver o tamanho de uma meloa é perfeita. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não me fico por aqui. Levo a minha militância ainda mais longe. Estou a pensar fundar um movimento que defenda os direitos dos megalomamófilos portugueses. E, se correr bem, posso alargar a coisa a outros grupos igualmente discriminados de gente com preferências mamárias alternativas como os maximegalomamófilos ou os micromamófilos, por exemplo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E faremos desfiles e arraiais. Gritaremos palavras de ordem. Em vez de nos comportarmos como pessoas normais que somos, não assustando gente de ideias menos arejadas, vamos esforçar-nos por chocar. Faremos figuras tristes. Usaremos chapéus com grandes mamas de esponja dos lados e soutiens de copa D enrolados à volta do pescoço à laia de cachecol. Dançaremos freneticamente ao som de Fafá de Belém. &lt;br /&gt;Porque tudo isto faz parte do orgulho megalomamófilo. E quem achar que é folclórico, desnecessário ou mesmo disparatado é um sacana preconceituoso.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6678341-111974320725306861?l=atrasado-mental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/111974320725306861'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/111974320725306861'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atrasado-mental.blogspot.com/2005_06_01_archive.html#111974320725306861' title=''/><author><name>Salustio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06790931641188930562</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://2.bp.blogspot.com/_YQWGFPNE2b0/SYBiMPMz2dI/AAAAAAAAA6g/FePjZp0hUO8/S220/maca2.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6678341.post-111516183074358412</id><published>2005-05-04T00:09:00.000+01:00</published><updated>2005-06-10T00:26:35.130+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Manifesto Godá&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jovem. Levanta-te e segue-me. Eu posso indicar-te o caminho. Tenho-te visto a andar sem rumo pela rua, indeciso quanto ao ritmo da passada, com os olhos no chão e a cabeça nas alturas. Não precisas de penar mais. Eu sei para onde queres ir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vivemos numa época de crise de valores. Normalmente, quem diz isto está a referir-se ao facto de andarmos todos a interromper gravidezes a torto e a direito sem nos preocuparmos em ir à missa de vez em quando, num perpétuo arraial de fornicação desregrada. Não é a isso que me refiro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nas gerações anteriores, passava-se directamente da infância para a idade adulta através do sacramento do matrimónio. Até à idade dos 18, 19, tudo era mais ou menos inocente. Depois disso, o objectivo comum passava a ser encontrar uma cara metade, casar e constituir família, possibilitando o início de um novo ciclo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora, as coisas mudaram. Quem vê a sua adolescência chegar ao fim, hoje em dia, tem um punhado de opções. Ou continua a fazer o mesmo, ou seja, envereda por uma “vida em comum”, uma “relação” mais ou menos oficializada e mais ou menos bem-sucedida (o divórcio também é uma experiência válida e uma separação de facto pode ser tão proveitosa como uma união de facto); ou tem a sorte de encontrar uma ocupação profissional de tal forma enriquecedora que faça esquecer tudo o resto (actor, cantor, futebolista ou secretário-geral da ONU). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fora isto, é preciso haver qualquer coisa que complemente o trabalho ou o estudo. Há os desportos radicais, o tuning, a criação de pitbulls e rottweillers, o crime, a aquariofilia, a filatelia, a informática, a pedofilia, a observação de aves, a pesca, a caça, o futebol, o ténis, a fórmula 1, o sexo, a masturbação, a masturbação com pittbulls e rottweillers, a masturbação dentro de um aquário com selos de correio e até, para quem gosta de emoções fortes, o folclore. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas há gente que, por ter uma educação mais esmerada ou apenas porque as circunstâncias da vida assim o determinaram, acha que está acima disto. Precisam de algo que lhes titile a sofisticação. Que os faça sentir que pertencem a um grupo. E não a um grupo qualquer mas a um grupo de gente que, como eles, tenha gosto apurado, tenha opiniões, saiba apreciar as artes e não ignore que sair de casa sem um saco a tiracolo e um livro de Boris Vian no bolso é como estar nu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Precisam de ser godás. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o que vem a ser um godá?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É muito simples. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comecemos pela pronúncia. Lê-se “gódá” e não “gudá” ou “gôdá” ou qualquer outra variante. Vem de Godard, realizador francês que, não sendo ele um godá propriamente dito, é um dos autores que, para qualquer godá que se preze, fica sempre bem citar e dizer que se conhece o seu trabalho e se gosta muito. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O termo é de minha autoria mas o conceito já existia. A única coisa que faltava era alguém perceber que não é apenas uma particularidade comportamental mas toda uma filosofia de vida. Dizia-se que fulano era intelectual. Ora, ser-se intelectual é bastante desprezível mas não se enquadra na grandiosidade emparvescente da essência do godá. Pacheco Pereira, por exemplo, é um intelectual. Mas nunca ninguém o verá de cachecol cheio de borboto e calças de bombazine a tentar decorar a ficha técnica de um filme eslovaco dos anos 30 a partir de uma brochura da Cinemateca.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois há variações de intelectual. “Pseudo-intelectual” ou o “intelectualóide”  que já se aproximam mais da natureza do godá. Mas são dois termos arruinados pelo uso e abuso de anos. Hoje em dia, “pseudo-Intelectual” e “intelectualóide” é o que os parvos chamam a toda a gente que é ligeiramente menos parva do que eles à falta de qualificativo mais adequado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No fundo, há cinco elementos fundamentais que definem a essência do godá. A saber: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1-Aparência&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O godá põe as coisas do espírito acima das coisas materiais. Mas as coisas do espírito não dão nas vistas e, por mais culto que se seja, não é por isso que alguém vai reparar em nós no Lux apinhado. O segredo está em vestir de forma aparentemente despreocupada mas garantindo que um conjunto singelo de elementos está sempre presente. O calçado deve ser desportivo e discreto. Ténis de marca mas que não chamem a atenção são o ideal. Calças de ganga só se não houver mais nada no armário. E, mesmo assim, convém que não sejam azuis. No tronco é onde a liberdade é maior. Dá-se preferência a cores sisudas e é melhor não haver nada escrito (o godá lê, o godá não é lido). Se houver alguma coisa escrita que seja arrojada e emblemática (o nome de um festival de cinema underground ou uma frase em inglês carregada de pós-modernidade vanguardista como “My feet smell” ou “I suck cock;” se o arrojo for muito, pode ser em alemão). Para complementar, um saco a tiracolo (simultaneamente prático e requintado), um cachecol (se fizer frio) e um par de óculos de massa (se houver falta de vista ou, mesmo que não haja, se houver dedicação que chegue para isso). Os homens devem usar a barba por fazer e o cabelo despenteado. As mulheres podem andar como quiserem que vão sempre sentir que estão a criar tendências (para além das tendências homossexuais que muitas criam nos godás machos hetero).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2-Gosto&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O gosto é o elemento definidor por excelência que faz dos godás tudo aquilo que são e consegue sobrepor-se aos outros quatro pois é por aquilo de que gosta ou finge gostar que um godá se posiciona na hierarquia godárica. A definição do que é ou não gostável em termos de arte não depende de critérios estéticos subjectivos (como sucede com o comum dos mortais) mas sim da seguinte equação matemática: x + y + z / m = r (em que x corresponde ao número de pessoas que não conhecem a manifestação artística em questão-quanto mais elevado o valor, melhor; y é a quantidade de pessoas que poderão ficar impressionadas com a sua referência; z é a importância de quem recomendou; m é a biografia do autor; e r o nível de apreciação). E há uma ressalva que deve ser feita no que diz respeito a cinema. O godá convicto não vê filmes americanos. Até pode já ter feito uma lista dos seus filmes preferidos (os godás gostam de fazer listas e de as comparar com as dos outros godás para ver quem tem a maior) e percebido que uma boa parte deles é americana mas não interessa. Todo o cinema americano deve ser metido no mesmo saco (com honrosas excepções: David Lynch e Woody Allen antes de se terem vendido ao capital, por exemplo). Não há cá "cinema independente" nem "blockbusters." Bons filmes ou maus filmes. Tudo é igualmente mau e americano (são sinónimos). Se algum não-godá mais afoito pedir explicações, diz-se-lhe que o cinema americano é mau porque é comercial. A seguir, foge-se a correr para não ter de ouvir os argumentos dele de que este argumento é uma imbecilidade. Além disso, os americanos não merecem mais depois daquilo que fizeram no Iraque e no Afeganistão. Os porcos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3-Discurso&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O discurso do godá genuíno é um verdadeiro trabalho de patchwork verbal. Nos primeiros anos de godázice, poderá haver uma tendência motivada pela falta de experiência para dizer coisas que são resquício de alguma actividade cerebral própria muito ligeira.  Com o tempo, o godá aprende que, com tanta gente a dizer coisas importantes, significativas, mordazes e bem pensadas ao longo da história da humanidade, é uma grande presunção pensar que alguma coisa que possam pensar por si próprios poderá conseguir ter mais interesse. Resta optar entre citações devidamente identificadas e citações obscuras retiradas de jornais e revistas ou ouvidas de passagem. A opção fica ao critério de cada godá. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;4-Expressão&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O godá não se limita a ser um apreciador de manifestações artísticas alheias. É ele próprio um artista multifacetado, dando especial importância às artes maiores do ponto de vista da produção artística godá: a poesia e a fotografia. A predilecção por estas duas formas de expressão deve-se a motivos essencialmente pragmáticos. Fazer cinema, pintar, cantar ou mesmo escrever prosa exige um conjunto de requisitos a priori e um certo nível de esforço que o godá não pode despender porque tem coisas melhores em que ocupar o seu tempo precioso. Para a fotografia e a poesia, basta ter acesso a uma máquina fotográfica e a um qualquer suporte de escrita digital ou analógico. Os resultados serão posteriormente expostos para apreciação de outros godás em blogs (godá que se preze tem de ter um blog, se se prezar mesmo muito, tem um livejournal) e podem mesmo chegar até ao grande público graças ao “empurrãozinho” de um godá amigo/conhecido com os contactos certos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;5-Convívio&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O godá é auto-suficiente. Mas não deixa de ser um animal social e, como tal, precisa de conviver com outros godás para se sentir realizado. Os ajuntamentos godás dão-se em locais que podem ir de estabelecimentos de diversão nocturna, galerias de arte, livrarias, salas de cinema, concertos, cafés ou qualquer recanto mal iluminado e cheio de fumo com um ar prazenteiro para albergar tertúlias. Nesses encontros, cada godá debita os novos conhecimentos que adquiriu nos dias anteriores (esforçando-se ao máximo para dar a entender que se trata de algo que já sabe há muito), recomendam-se e trocam-se livros, cds e dvds, fumam-se cigarros, bebem-se cafés e cada godá tenta parecer o mais natural possível, ao mesmo tempo que vai pensando que a godázice dos outros não passa de pose e que só a sua é legítima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E é esta a essência do godá. Muito mais haveria para dizer mas, por motivos de tempo, vejo-me forçado a ficar por aqui. Há um ciclo muito bom na Cinemateca subordinado ao tema “François Truffaut e cuecas de renda-uma relação intempestiva” e, se chegar atrasado já não apanho brochuras.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6678341-111516183074358412?l=atrasado-mental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/111516183074358412'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/111516183074358412'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atrasado-mental.blogspot.com/2005_05_01_archive.html#111516183074358412' title=''/><author><name>Salustio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06790931641188930562</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://2.bp.blogspot.com/_YQWGFPNE2b0/SYBiMPMz2dI/AAAAAAAAA6g/FePjZp0hUO8/S220/maca2.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6678341.post-110796141932220748</id><published>2005-02-09T15:02:00.000Z</published><updated>2005-02-09T15:03:39.323Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Branco&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vou votar em branco. E surpreende-me a maneira como muita gente com quem partilho a minha intenção de voto reage. Acho que reagiriam melhor se dissesse que ia votar no PNR (para quem não sabe, o PNR é um partido fascista acobardado pela lei eleitoral que acha que todos os problemas do país se resolveriam se repatriássemos os imigrantes clandestinos, fechássemos as fronteiras e saíssemos da União Europeia). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dos argumentos que mais vezes usam é o de que eu e outros como eu, por votarmos em branco, seremos os responsáveis se, no fim de determinada legislatura, Portugal não for um país perfeito ou, pelo menos, estiver mais próximo de padrões escandinavos de perfeição. Ou seja, e acompanhem-me que isto é difícil de explicar e mais ainda de perceber, eu, ao enfiar o meu boletim de voto na urna tal e qual como o recebi (mas dobrado), sou o responsável pelos erros governativos por excesso e por defeito cometidos pelo partido em que eles, os que põem uma cruz no boletim, votaram e que ganhou ou, não tendo ganho, terá conseguido eleger uma representação parlamentar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isto é o mesmo que dizer que quem não vota em ninguém é responsável porque esbanja o seu voto de forma quase onanista, podendo ser esse voto a menos o necessário para permitir eleger o deputado que faria toda a diferença, por exemplo, para dar a maioria absoluta a um partido ou para a retirar a outro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para quem assim pensa, votar em branco é um acto irresponsável, correspondendo a uma negação do dever cívico de participação no processo democrático. Também pode ser visto como laxismo ou inconsciência. Ou ainda como preguiça de reflectir nas propostas dos vários partidos e escolher o que nos pareça ter melhores ideias para assegurar um governo eficaz e produtivo. E, com certeza, que o país e o mundo estarão cheios de gente que se enquadra nesta descrição. Estes, os laxistas, os irresponsáveis, os preguiçosos e inconscientes são os que não votam, os que ficam em casa e fazem de conta que não é nada com eles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Votar em branco é diferente. E compreende-se facilmente que tem de ser diferente porque ninguém se dá ao trabalho de procurar o cartão de eleitor, ir à mesa de voto, esperar na fila (bons tempos em que era preciso esperar na fila para votar), ouvir o nosso nome lido em voz alta e tudo para dobrar um papel e introduzi-lo numa ranhura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O voto em branco é um acto reflectido e consciente. Quem vota em branco, fá-lo por achar que nenhum dos partidos concorrentes a uma eleição apresenta propostas suficientemente válidas e que valham algo tão precioso como a nossa cruzinha no boletim. E é mais consciente do que votar no partido A para não ganhar o partido B mesmo que se ache que os candidatos do partido A são uns incapazes iguais aos do partido B mas, pelo menos, assim sempre vai havendo alguma variedade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É esta a verdadeira irresponsabilidade. Ver a democracia como uma espécie de jogo em que se torce pela equipa (partido) do nosso coração e se faz o possível para ganhar ou, caso não seja possível a vitória, para perder por poucos, aplicando o que poderia ser descrito como “voto táctico.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, se alguém não se identifica com nenhum dos partidos, não poderá ser culpado por isso. Da mesma forma que ninguém poderá ser culpado por ser um militante convicto do CDS (e daí…). Também há quem não perceba como é possível isto acontecer com a variedade imensa (SARCASMO) de ideais representados pelos vários partidos portugueses. É preciso ser-se mesmo muito esquisito para não conseguir escolher um partido no qual votar. Ou então é porque se tem a mania de ser diferente, o que, como é sabido, é dos piores defeitos que alguém pode ter nesta era de carneirismo encarreirado em que vivemos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas vou votar em branco na mesma. Tentem impedir-me. &lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6678341-110796141932220748?l=atrasado-mental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/110796141932220748'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/110796141932220748'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atrasado-mental.blogspot.com/2005_02_01_archive.html#110796141932220748' title=''/><author><name>Salustio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06790931641188930562</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://2.bp.blogspot.com/_YQWGFPNE2b0/SYBiMPMz2dI/AAAAAAAAA6g/FePjZp0hUO8/S220/maca2.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6678341.post-110650164271931365</id><published>2005-01-23T17:32:00.000Z</published><updated>2005-01-23T17:34:02.720Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Eles vêm aí&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo na vida tem um ciclo. Os animais nascem, crescem e morrem. As plantas germinam, desabrocham e secam. Os concorrentes de reality-shows participam, dão entrevistas e acabam a trabalhar numa sapataria. É a ordem natural das coisas. A que nem os governos escapam. São eleitos, têm os seus estados de graça e desgraça, os seus escândalos, os seus triunfos reais e fictícios, as suas demissões e remodelações, os desmentidos e por aí fora. Até às eleições que podem ser vencidas ou não, dependendo da vitória o prolongamento da sua vida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tem sido assim, como não podia deixar de ser, com os governos portugueses. O último, o de Santana Lopes, teve uma vida abreviada à custa de pontapés dados na incubadora e outros actos censuráveis de violência infantil. Vive agora os seus últimos dias com a nostalgia típica de fim de festa. “Lembras-te, Paulo, do que nós nos divertimos? Ah... Aquilo é que era vida. Bons tempos...” Pois. Eram bons mas acabaram-se. E, pelo que dizem os oráculos, não voltarão tão cedo (porque a previsão do futuro é uma parte integrante da democracia moderna e todos sabem quem vai ganhar com meses de antecedência). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não que alguém lhes vá sentir a falta, tirando os alucinados do costume, aqueles que acham que as coisas realmente não estão bem mas antes estavam ainda pior e até se tem notado uma melhoria ainda que microscópica e o futuro só pode vir cheio de coisas boas e felizes desde que o governo siga em tons alaranjados com mais ou menos (ou nenhuns) laivos de azul e amarelo. E não, não estou a insinuar que vão convidar um jogador da selecção brasileira para ministro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até houve muito boa gente que festejou. Confesso que fui um deles. Quando soube, senti-me tão festivo que montei a árvore de Natal (passe a óbvia piadinha equestre). Felizmente, estávamos na altura do ano apropriada. Se estivéssemos em Março, acho que fazia o mesmo. Talvez seja melhor comprar uns fogos de artifício e guardá-los na despensa para evitar embaraços natalícios se a próxima queda de governo ocorrer fora da quadra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, pirotecnias à parte, não há grandes motivos para festejar se pensarmos seriamente no que nos espera. Ou já se esqueceram? Não foi assim há tanto tempo. As caras nem tiveram tempo de mudar. Demitiu-se este, fugiu o outro, reformou-se sicrano, foi beltrano implicado num escândalo de pedofilia e ilibado de maneira muito pouco convincente. Um Manel casou-se com uma boazona para deixarem de dizer que joga para o outro lado. O outro Manel decidiu-se a sair do jarro de formol. Um qualquer mostrou-se descontente com a liderança mas disponibilizou-se na mesma para o que fosse preciso sem que alguém lhe ligue peva, como é costume e até porque ser filho do paizinho já não ajuda. Mas, no essencial, são os mesmos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, sendo as pessoas as mesmas, as ideias e métodos também serão, no essencial, os mesmos. Ou melhor, quando digo “ideias,” o que quero dizer é “falta delas.” É melhor assim. Para evitar mal-entendidos. Não quero que, daqui a quatro anos me venham dizer “Olha lá, então tu disseste que os tipos tinham ideias e afinal não tinham! Andas a mangar com o pessoal ou quê?” Se estão à espera de ideias, de projectos para o futuro, medidas revolucionárias que tirarão Portugal do buraco, desenganem-se. A não ser que se contentem em ouvir falar de ideias, projectos e medidas revolucionárias e não façam questão de ver as ditas aplicadas e com resultados práticos. Porque, se há coisa em que os nossos futuros governantes (ai Fevereiro, que ainda vens tão longe) são bons é no paleio. Aí ninguém os bate. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vejam o exemplo do engenheiro. Mesmo não tendo grande jeito para contas de cabeça (ou para outra coisa qualquer que se afaste muito da engenharia civil), ele falava, falava, emocionava, falava mais um bocadinho, emocionava-se, apelava, empolgava, enternecia, ajeitava a franja, falava, sorria, piscava o olho, ajeitava a franja outra vez e arranjava maneira de acabar todas as intervenções públicas com uma explosão de aplausos, gritos de apoio, bandeiras a acenar, papelinhos coloridos a cair do céu, fogos de artifício e música do Vangelis. Tudo isto, claro, com uma ajudinha dos especialistas em marketing brasileiros contratados pelo partido. &lt;br /&gt;Porque, afinal de contas, falamos de socialistas modernos. E, no socialismo moderno, as ideias são dispensáveis. Quem precisa de ideias quando se pode ter uma valente chuva de papelinhos com as cores da bandeira e um espectáculo de raios laser? É colorido e sabe-se como o povo gosta de coisas coloridas e brilhantes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não. Ideias não terá o governo adivinhado de José Sócrates. Mas terá outras coisas, de certeza. Terá paixões apregoadas por dá cá aquela palha e que se sucederão umas às outras para dar uma ideia de fluidez governativa. Terá manifestações de júbilo e pesar. Sentimentos de orgulho por um trabalho bem feito ou a triste mas necessária aceitação de que as coisas não têm corrido bem mas podem correr melhor com o esforço de todos, de acordo com o andar da carruagem. Terá apelos. Terá esperança e solidariedade. Vontade de progresso. E uma consciência sempre presente de que eles, os que governam, não são superiores aos que são governados. Fazem parte deles. São seus iguais, num esforço fraternal para ajudar quem precisa e levantar quem está caído. Terá isto tudo. Terá tanta coisa que muita gente sentirá um aperto no estômago quando perceber (outra vez) que afinal não tinha nada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não estou a dizer que o próximo governo será igual ao governo e meio que nos tem governado nos últimos anos. Que eu sou um gajo com discernimento e há uma ou duas pessoas no mundo que sabem isso e para quem as minhas opiniões são importantes. E só a uma delas pago para pensar assim. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É óbvio que há diferenças. E, para melhor as expor, não resisto a recorrer a uma pequena metáfora. Imaginemos que temos dois rapazolas travessos que personifiquem as duas correntes ideológicas: a que nos tem governado e a que irá governar. A um dos rapazolas, ao socialista, chamaremos Zé. Ao outro, ao social-democrata, chamaremos outro nome escolhido ao acaso. Pedro, por exemplo. O Pedro e o Zé passeiam pelo campo, cada um por si, e descobrem uma moita que arde (estamos em Agosto). Trata-se claramente de um princípio de incêndio que eles, e só eles, poderão evitar. O Pedro entra em pânico. Gosta de se armar em valente e tem fama de chico-esperto mas, agora que enfrenta uma situação realmente complicada, não sabe bem o que fazer. Decide-se a arrancar à pressa a moita ardente pelo pé e, com muito jeito, lançá-la para o matagal que estava ali ao lado onde a moita decerto se apagará e, em não apagando, nunca poderá fazer grandes estragos numa reles reserva natural. Dias depois, com o incêndio finalmente extinto e milhares de hectares de floresta preciosa destruídos, o Pedro volta a assumir a pose e explica que a culpa até nem é sua. Aquilo só aconteceu porque a mata não tinha sido limpa e, porque realmente é uma tragédia, é urgente apurar responsabilidades e garantir que não voltará a acontecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto ao Zé, deparando-se com a mesma moita em chamas e sendo mais calmo do que o Pedro, fica ali a olhar para a labareda pensativo e de mão no queixo a equacionar as possibilidades. Vai chamar uns amigos para verem a coisa e fazerem um ponto de situação, pede conselhos, olha para o incêndio (por esta altura, já é um incêndio) e chega à conclusão de que o melhor é não fazer nada até porque o que havia para arder já ardeu e o fogo acabará por se extinguir por falta de combustível mais tarde ou mais cedo. Depois, no rescaldo, anda de porta em porta, confortando as vítimas que sofreram perdas materiais e humanas, faz cara triste, talvez até verta uma ou outra lágrima e diz que está solidário, que podem contar com ele se alguma vez precisarem e apelando a um grande esforço nacional para ajudar aquela pobre gente e prevenir a repetição da catástrofe. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Calma. É só uma metáfora com o objectivo de tentar explicar as diferenças subtis que &lt;br /&gt;existem realmente, contrariando todos os que digam que “é a mesma merda.” Na minha modesta opinião, não é a mesma merda. São merdas diferentes. O cheiro pode ser igual ou muito parecido mas a diferença está lá. E não quis com isto insinuar que haja por aí políticos com intenções de pegar fogo ao país. Isso já acontece de qualquer forma todos os Verões. Não haverá com certeza motivo para pânicos. Podemos não estar bem entregues mas, pelo menos, sempre somos uma democracia saudável e funcional. Olhem o que era ter esta gente a mandar em nós sem termos sido nós a escolhê-los. Era uma valente chatice.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6678341-110650164271931365?l=atrasado-mental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/110650164271931365'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/110650164271931365'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atrasado-mental.blogspot.com/2005_01_01_archive.html#110650164271931365' title=''/><author><name>Salustio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06790931641188930562</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://2.bp.blogspot.com/_YQWGFPNE2b0/SYBiMPMz2dI/AAAAAAAAA6g/FePjZp0hUO8/S220/maca2.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6678341.post-110494357121415273</id><published>2005-01-05T16:44:00.000Z</published><updated>2005-01-05T16:46:11.213Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;O mar enrola na areia&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há mar e mar, há ir e voltar. Infelizmente para todos nós, o slogan que Alexandre O’Neill criou para uma campanha de segurança nas praias é só um desejo, uma recomendação e não um facto. Porque o mar é uma coisa tremenda que não se deixa limitar por slogans publicitários nem moldar pela vontade humana. Faz o que bem lhe apetece e nem precisa de consciência para saber muito bem para onde tem de ir e o que tem de fazer. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quando um terramoto força a água a galgar a terra, destruindo o que lhe aparece à frente e arrastando consigo as vidas dos que têm o azar de estarem no sítio errado na altura errada, pouco haverá a fazer para além de, como é costume dizer-se, enterrar os mortos e tratar dos vivos. Nestes casos, a culpa que também se diz não dever morrer solteira, morre viúva porque não há quem culpar. Se a terra treme, se o mar reduz a costa a escombros, se um vulcão destrói uma cidade inteira, não há armas de destruição massiva, ditadores, redes terroristas, governos ou quadrilhas de malfeitores que possam ser responsabilizados. Nem sequer se pode culpar a violência na televisão e no cinema ou os jogos de vídeo. Ou o Marilyn Manson. E se não se pode culpar um tipo que pinta a cara de branco, usa lentes de contacto de cores bizarras e se veste de maneira esquisita, é porque a coisa deve ser mesmo grave.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por tudo isto se compreende que o mundo esteja chocado pela destruição provocada no Oriente por forças que não podemos controlar. E pelos mortos. Ou compreender-se-ia se o choque fosse provocado só por isto. Acredito que não é. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há diversos factores a ter em consideração. Em primeiro lugar, não sei até que ponto este clima de consternação geral existiria de forma tão prolongada se os locais afectados não fossem destinos turísticos tão populares e se, entre as vítimas, não houvesse tantos ocidentais. Até que ponto não seria apenas mais uma calamidade num sítio longínquo com vítimas de pele escura e direito a referência nos noticiários durante dois ou três dias acompanhada por comentários nas ruas de “Viste aquilo no Sri Lanka? Que chatice... Onde é que é o Sri Lanka?” Aviões chocam contra dois arranha-céus em Nova Iorque que caem, matando 3000 pessoas. Uma tragédia como o mundo nunca viu. Choque. Pânico. Reflexão. Para que não volte a acontecer. No Sudão, morrem 70.000 pessoas por não terem que comer. “O Sudão é em África, não é? Que chatice...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, no entanto, entre os desejos para 2005 das pessoas entrevistadas pelos canais de televisão portugueses em festas de fim de ano por todo o país, o mais ouvido, para além dos habituais desejos de saúde e felicidade, foi o desejo de que não houvesse mais calamidades naturais. Como, em anos anteriores, foi o desejo de que acabasse o terrorismo. Ou que acabasse a guerra no Iraque. Ou, com sorte, um desejo muito geral de paz para o mundo todo. Nem um único voto de melhoras ligeiras das condições de vida dos milhões de desgraçados que morrem à fome no mundo todos os anos desde a revolução industrial, compreendendo-se que seja difícil pensar em gente faminta entre fatias de bolo-rei, taças de champanhe e fogos de artifício. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não o fazemos de forma consciente. Nós, os tais ocidentais, não somos má gente e somos tão sensíveis à miséria e à desgraça como qualquer outra civilização. Ajudamos de bom grado quando vemos que alguém precisa de ajuda e sem esperar nada em troca. O pior é quando não vemos. Aí não podemos fazer nada. E, se as coisas acontecem longe de nós, dependemos da comunicação social para ficar a saber que algures no mundo aconteceu (outra vez) qualquer coisa muito má. É uma das missões mais nobres que os jornalistas têm. Mostrar ao mundo os problemas dos outros para que alguém, algures, possa fazer alguma coisa para os resolver. E a televisão assume aqui o papel de maior importância pela capacidade incomparável de captar imagens que valham pelas tais mil palavras que, em muitas destas situações, são difíceis ou mesmo impossíveis de dizer. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não é isso que a televisão faz. Nesta e noutras ocasiões, o que a televisão tem feito, com poucas e honrosas excepções, é voltar a transformar a desgraça em entretenimento, fazendo da morte, da fome, da doença, do sofrimento humano real o sal e a pimenta de uma espécie de reality-show global em que todos vivemos e colocando-nos num estado de hipnose generalizada em que se torna muito difícil resistir a ver as imagens mais recentes dos últimos cadáveres flutuantes a serem filmados, do funeral da princesa, dos aviões que embatem nas torres. Mesmo que consigamos dizer não (como à droga), continua a ser difícil evitar informações de que não precisamos mas que nos perseguem e espreitam um pouco por todo o lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E mais difícil se torna escapar ao clima de medo generalizado. Um medo que também não é bem real porque não é medo de algo em concreto. É um medo permanente e difuso provocado pela consciência (para a qual somos empurrados) de que não estamos seguros mas sem perceber ao certo o que nos ameaça, se a eventualidade de um atentado terrorista que pode acontecer a qualquer altura e em qualquer sítio, se o facto de vivermos sobre placas tectónicas que não param de se arrastar para cima umas das outras ou o mar que temos aqui mesmo ao lado e que está desejoso de nos engolir com as suas águas poluídas por resíduos tóxicos e povoadas por tubarões cheios de dentes, alforrecas cheias de tentáculos ou lulas ferozes do tamanho de petroleiros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Então decide-te, ó pá! Queres cobertura televisiva ou não?” pergunta o leitor confuso número 47. E eu respondo que sim. Que quero cobertura televisiva e que quero saber o que se passa. Mas não preciso de ser informado de cada vez que o número de mortos aumenta como se a minha vida dependesse disso e como se estivessem a contar participantes num desfile de Pais Natais. Pior ainda. Não preciso de os ver (os Pais Natais e os mortos). Se me dizem que há muitos mortos por enterrar em Sumatra, não preciso de ver para crer. Acredito na palavra de quem mo diz. Dispenso as imagens e dispenso a descrição pormenorizada do cheiro a putrefacção que se sente um pouco por toda a costa da Tailândia cortesia do senhor enviado especial a um sítio qualquer que nem sequer sabia existir dois dias antes. E acredito que imagens de gente a ser arrastada pelo mar não impressionam mais se as virmos várias vezes seguidas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que nos salva é saber que esta euforia catastrófila que enche os écrans com repórteres imbuídos de uma alegria infantil comparável à de uma criança com um brinquedo novo (os brinquedos aqui são as milhentas palavras novas que aprendem de propósito para a ocasião e que não se cansam de repetir como “tsunami,” “escalada” ou “taliban” ao mesmo tempo que tentam passar a imagem de que sempre as souberam) durará apenas até à próxima catástrofe/escândalo/conquista desportiva. Ou, se não houver nenhuma catástrofe/escândalo/conquista desportiva no espaço de um mês, a novidade esgota-se e, aos poucos, vamos deixando de ouvir falar no assunto até chegarmos a um ponto em que, mesmo que houvesse novas informações, estas não são veiculadas porque o público está saturado e já ninguém pode ouvir falar do assunto sob pena de mudar de canal. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até lá, siga a festa. A contagem das vítimas aumentou em mais 500 mortos e há um novo videoamador feito por um turista sueco que captou imagens impressionantes do primeiro impacto do tsunami quando estava pendurado num coqueiro a fazer um documentário sobre formigas dos trópicos. A não perder.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6678341-110494357121415273?l=atrasado-mental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/110494357121415273'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/110494357121415273'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atrasado-mental.blogspot.com/2005_01_01_archive.html#110494357121415273' title=''/><author><name>Salustio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06790931641188930562</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://2.bp.blogspot.com/_YQWGFPNE2b0/SYBiMPMz2dI/AAAAAAAAA6g/FePjZp0hUO8/S220/maca2.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6678341.post-110349081901100243</id><published>2004-12-19T21:12:00.000Z</published><updated>2004-12-19T21:24:56.573Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Tradições do nosso Portugal&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há uma coisa de que nos poderemos sempre orgulhar. Já cá andamos há muito tempo, vivemos num dos países mais veteranos da Europa e, como não poderia deixar de ser, fomos dotados pela história de um leque vastíssimo de tradições e costumes que fazem dos portugueses o que são e contribuem para tornar únicos os habitantes deste cantinho à beira-mar prantado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com tamanha riqueza de costumes, é difícil escolher um como tema e podia escrever sobre, por exemplo, a arte de cuspir para o chão, o talento inato para improvisar casas-de-banho em qualquer lado ou daquele jeito tão nosso, tão português para nos enfiarmos pelo mar dentro, enfrentando o desconhecido com o objectivo nobre de dar novos mundos ao mundo ou de contribuir para o enriquecimento da taxa de afogamentos nas praias durante o Verão (dependendo da época histórica em análise). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não o vou fazer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque não me apetece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E não vale a pena insistirem. Não me apetece pronto!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em vez disso, vou falar de outra tradição legitimamente lusitana. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E começo por me dirigir aos mais novos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jovem, acabaste agora o curso de gestão de empresas que os teus pais queriam que tirasses com a condição de te pagarem depois um curso de teatro, que sempre foi a tua vocação. Preparas-te para enfrentar o mercado de trabalho. Sabes que será difícil. O país é pequeno. As mentalidades também. Vais ter de penar para conseguir uma posição à altura das tuas capacidades. Vais ter de morder o fel da rejeição laboral. Vais ter de te submeter a entrevistas de emprego humilhantes e a testes psicotécnicos absurdos. Vai ser mau. Vai doer. Mas tens de passar por isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembras-te do pai daquele colega de escola que toda a gente gozava porque tinha orelhas de abano e com quem tu nunca gozaste (pelo menos, não à frente dele)? Sim, o tal que era director daquela empresa. Por que não ligar ao teu bom amigo Dumbo e cobrar aqueles anos de amizade devota que lhe dedicaste com grande perigo para a tua reputação académica? Isso mesmo. Lembra-lhe o que sofria, os momentos passados a chorar pelos cantos da escola. Lembra-lhe como tu eras o único que o avisava que tinha passado o dia todo com um papel a dizer “O ORELHAS É UM CAMELO” colado nas costas. Claro está que só o fazias no fim do dia mas o que conta é que te preocupavas com o bem-estar dele. &lt;br /&gt;E ele bem podia preocupar-se com o teu agora. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sugere-lhe que dê uma palavrinha ao papá (o Dumbo Sénior) e lhe diga que conhece a pessoa ideal para aquela posição lá na empresa que vagou recentemente por causa daquele escândalo com as secretárias ucranianas e a lata de papaias em calda na arrecadação dos toners de fotocopiadora. Não há nenhuma posição vaga na empresa? Azar! Tu também tiveste de arranjar espaço no horário escolar, entre aulas, namoricos atrás do pavilhão e jogos de futebol de cinco, para segurar a auto-estima do Orelhas e impedi-la de rastejar pelo chão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que foi? Não conheces ninguém com familiares importantes e o bombo da festa da escola eras tu? E a pessoa mais importante que consegues arranjar na tua própria família é o tio Ernesto que foi sargento dos pára-quedistas e agora vive da reforma devida por ter um estilhaço de moçambicano alojado no abdómen?&lt;br /&gt;Nada temas. É para pensar em alternativas que eu aqui estou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem não tem cão, caça com gato (momento de sabedoria popular). E quem nem sequer tem gato, terá de caçar com o sucedâneo mais à mão. Sei lá... um coelho com garras aguçadas ou um peixinho dourado com vocação para perdigueiro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se não tiveste a sorte de nascer com “contactos” ou se as circunstâncias da vida não te fizeram adquiri-los, não está nada perdido. A amizade não é só uma coisa muito bonita. Também é útil. E toda a gente gosta de ter amigos (que nunca são demais). Por isso, ninguém se importará de ter mais um amigo, mesmo que esse amigo seja uma pessoa dotada de espírito visionário e consciente das vantagens que poderão advir da amizade certa na altura certa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Imaginemos que anseias por uma carreira de sucesso como serralheiro. Tiraste um curso num centro de formação muito bom (desististe a meio mas foi como se o tivesses acabado), sabes perfeitamente que não és o serralheiro mais dotado do mundo mas, que raio, também tens direito à vida! Vai daí, começas a frequentar aquele certo e determinado bar onde sabes que a nata da serralharia passa as noites para descomprimir das serras... e brocas... e... o que quer que os serralheiros usem como &lt;br /&gt;instrumentos de trabalho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se souberes jogar os teus trunfos, se souberes aplicar o charme que sabes que tens, se te conseguires integrar nas conversas certas, bajular as pessoas apropriadas, conseguir que te apresentem a certos e determinados indivíduos bem colocados, tens a carreira lançada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É que nem precisas de te esforçar. Com amigos no sítio certo (nem é preciso serem muitos, basta um, desde que tenha uma rede de contactos vasta), tens biscates garantidos para o resto da vida. E nem precisas de saber distinguir entre uma fechadura de pistões e um cadeado de torniquete. Aliás, não precisas de saber nada de nada. A amizade é bonita a esse ponto. Só tens de te assegurar que a amizade que te levou onde estás nunca será rompida e que, se tiver mesmo de ser, que o seja por ti e para ser substituída por uma amizade mais proveitosa. A nobreza de sentimentos é uma das maiores qualidades que o ser humano pode ter.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que foi agora? Não consegues fazer amigos? És um anti-social? Já estás a dificultar muito as coisas. Mas podes parar de choramingar como uma menina (a não ser que sejas mesmo uma menina, nesse caso podes continuar mas também não exageres). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se não tens familiares (mesmo que não sejam teus) ou amigos em posição de te dar uma ajudinha, ainda tens uma hipótese. Para alguns, poderá ser um assunto delicado mas vou tentar explicar o melhor que sei e posso e espero não ofender ninguém. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conheces alguém, por exemplo, aquela vizinha muito estúpida mas bem apessoada, que ocupe uma posição de relevo sem ter algo que se aproxime, ainda que minimamente, a competência? Nunca pensaste que era estranho alguém com estas condições ter uma posição daquelas? E nunca te recriminaste por ter pensado, numa vez ou noutra, que a explicação mais provável para um fenómeno tão estranho talvez fosse que a tua vizinha não tivesse grande pudor em trocar “jeitinhos” profissionais por “jeitinhos” de índole mais brejeira? Pois. Acredito que sim. Quem não teria feito o mesmo em circunstâncias iguais?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas chega de recriminações. Até porque o mais provável é que não haja motivo para remorsos. Se uma determinada pessoa parece não ter quaisquer competências para determinado cargo e, mesmo assim, o ocupa, sem ter um familiar ou amigo que possa por isso ser responsável, o mais provável é que tenha mesmo dado o corpo ao manifesto. &lt;br /&gt;E tu também o podes fazer. Sem vergonhas. Sem remorsos. Afinal, roubar é pecado mas ninguém nos pode censurar por darmos o que é nosso, pois não? Mesmo que seja para obter esta ou aquela compensação. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Afinal, não é assim tão pouco habitual. E é uma prática bastante comum mesmo nas esferas mais elevadas. Por exemplo, na política ou nas artes onde este tipo de transacção é tão frequente que chega quase a ser procedimento oficial. &lt;br /&gt;Basta ligar a televisão para ter exemplos frequentes. Nunca reparaste numa ou outra jovem apresentadora pouco arejada de ideias mas com um palminho de cara e mais palmo e meio de corpo que, de vez em quando, parece ter alguma dificuldade em sentar-se para fazer uma entrevista ao Roberto Leal que nos visita para apresentar o novo disco e dizer que nos tem no coração e que não leva a mal o que gozamos com a cara dele porque somos todos irmãos? Lá está. Ou se não é a dificuldade em sentar-se, terá decerto queimaduras provocadas pela fricção da alcatifa nos joelhos ou um fac-símile perfeito do tampo da secretária do patrão nas costas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não se pense que este tipo de prática apenas beneficia as carreiras profissionais de membros do “belo sexo.” Há alguns anos atrás, talvez fosse assim até porque eram os homens que ocupavam todos ou quase todos os cargos de relevo, mas as coisas têm mudado de forma gradual, abrindo uma série de novos horizontes de facilitismo carreirista sexual ao sexo masculino. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E pronto, jovem. Agora que sabes como as coisas se fazem, é só aplicares os princípios teóricos que aqui expus. E se o souberes fazer e conseguires, à custa deles, chegar ao topo, lembra-te de mim e poderás ser tu a fazer-me um jeitinho. Temos de ser uns para os outros, não é?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6678341-110349081901100243?l=atrasado-mental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/110349081901100243'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/110349081901100243'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atrasado-mental.blogspot.com/2004_12_01_archive.html#110349081901100243' title=''/><author><name>Salustio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06790931641188930562</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://2.bp.blogspot.com/_YQWGFPNE2b0/SYBiMPMz2dI/AAAAAAAAA6g/FePjZp0hUO8/S220/maca2.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6678341.post-110281886793661447</id><published>2004-12-12T02:33:00.000Z</published><updated>2004-12-12T02:34:27.936Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Um conto de Natal&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-E depois, avôzinho?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Depois, o Presidente da República disse ao primeiro-ministro que ia dissolver o parlamento, o que era uma maneira simpática de dizer que o primeiro-ministro ia deixar de o ser. Ora, o primeiro-ministro, que já andava na política há muitos anos, percebeu logo que o melhor que tinha a fazer era começar a fazer campanha eleitoral naquele preciso momento, aproveitando as vantagens da posição que ainda ocupava, e mostrar-se muito surpreendido e indignado com a situação, fazendo-se de vítima e pedindo a demissão de um governo com a honra ofendida pela vilania caudilhista presidencial. Afinal de contas, não havia motivo nenhum para uma decisão drástica como aquela porque a maioria que sustentava o Governo continuava estável e, ainda por cima, estava-se precisamente a entrar no momento em que se iriam começar a notar os primeiros sinais de saída da crise.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-E era mesmo assim, avô?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Bom... é verdade que a maioria continuava tão estável como sempre estivera até porque os senhores deputados dos dois partidos e os colegas que integravam o Governo sabiam muito bem que a sua permanência no poder estava dependente da capacidade recíproca para engolir pequenos sapos e continuar a fingir que reinava a harmonia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Então quer dizer que o Presidente fez mal?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Não, minha netinha, isto foram os argumentos das pessoas ligadas aos partidos que formavam a coligação governamental. A verdade é que houve uma sucessão impressionante de casos polémicos num período de tempo muito pequeno e, se a maioria da população não viu com bons olhos a nomeação do tal senhor Santana Lopes de que te falei para primeiro-ministro, as coisas depressa arranjaram maneira de piorar. E quando acontecia alguma coisa que fazia pensar que tínhamos batido no fundo como, por exemplo, quando um ministro resolveu opinar sobre a prestação de um comentador televisivo e esse comentário infeliz acabou por resultar directa ou indirectamente (e, se calhar, foi directamente) no afastamento desse comentador, logo se seguia outra coisa qualquer que nos mostrava que ou não tínhamos chegado ainda ao fundo ou tinham arranjado maneira de escavar mais uns metros de folga. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Não percebo, avôzinho. É tão complicado. Afinal, o Presidente fez bem ou mal?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Olha, fez a única coisa que se podia fazer. Por isso, só pode ter feito bem. Mas não te enganes. Este Presidente também não é nenhum génio político, coitado. Só chegou ao cargo porque as pessoas do partido se queriam livrar dele e assim sempre deixava terreno livre aos senhores que se seguiram. A candidatura à Presidência foi assim uma espécie de pontapé para cima que lhe aplicaram. Mas não lhe doeu nada e até ficou muito satisfeito porque era uma oportunidade que lhe davam para fazer uma das poucas coisas em que era realmente bom: apelar à calma e à tranquilidade, chamar a atenção para tudo e por nada e passar o tempo numa atitude de paizinho sábio da Nação, fazendo comentários que tinham tanto de oportuno como de inócuo. E, para lhe facilitar ainda mais as coisas, a sua maior oposição era o anterior primeiro-ministro que tinha passado dez anos a governar e de quem já todos estavam fartos mesmo que não viesse para a televisão comer Bolo-Rei de boca aberta e provar aos que ainda tinham dúvidas que é um homem seco e com muito mau feitio.  O principal problema nesta situação é que o Presidente da República não teve a clareza de ideias ou a coragem para lidar com a situação na altura apropriada e do modo mais adequado, ou seja, quando o primeiro-ministro que veio antes deste de que te falo decidiu fazer de conta que não era nada com ele e fugir de maneira apressada para um poleiro mais alto e para paragens mais floridas onde os passarinhos são mais afinados e as batatas fritas são mais belgas. Era nessa altura que deveriam ter sido convocadas eleições, evitando-se este sarilho todo. Mas, coitado, como é um homem de bom coração, quis mostrar que se preocupava mais com o bem geral do país do que com o sucesso do seu partido e talvez nem mereça a suspeita de que adiou a dissolução do parlamento até ao momento em que o PS passou a ter condições de ganhar as eleições.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Acho que já percebi. E o que acontece a seguir?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Agora vai haver eleições e os portugueses lá terão, mais uma vez, de ir votar no partido mais capaz para tirar Portugal do lodo em que está atolado há tanto tempo que até já se afeiçoou a ele. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-E qual é esse partido?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Isso é uma pergunta muito complicada. Mas o avô vai tentar explicar-te o melhor que sabe. Nestas coisas dos partidos, temos os de direita e os de esquerda. Normalmente, também há os do centro mas, como somos especiais, os nossos “do centro” estão ligeiramente descaídos para um dos lados. Na direita, temos o CDS que é um partido de valores. O facto de serem um partido de valores (a oposição à liberalização do aborto e do consumo de drogas, um certo eurocepticismo que deu lugar a uma eurocalmia com laivos de europalermice) é ideal para acomodar políticos e aspirantes que saibam que o poder é a sua vocação mas que não querem perder tempo com a chatice das ideologias. Basta dizer que sim a um punhado de “valores” e, a partir daí, são livres de dar asas à sua genialidade politiqueira. Depois vêm o PSD e o PS, o primeiro à direita, o segundo à esquerda (ou vice-versa... não é coisa que importe muito). Esta referência ao posicionamento de cada um destes partidos é apenas simbólica porque não existem diferenças reais em termos ideológicos entre um e o outro. Em vez da classificação antiquada em “partidos de direita” e “partidos de esquerda,” o PS e o PSD encaixam-se numa classificação que não é fixa e que sofre alterações periódicas. Um é o partido do governo e o outro o da oposição. Tudo o que for para além disto, incluindo as posições que cada partido defende (normalmente, as posições opostas às defendidas pelo outro para dar uma aparência de um certo conflito de ideias que fica sempre bem em democracia) está dependente da sondagem da semana. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-E à esquerda do PS, avô?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-À esquerda do PS temos dois partidos. Há o PCP que é uma espécie de centro de dia onde velhinhos saudosos dos bons velhos tempos do PREC vão jogando umas partidas de sueca entre um copo de marxismo bem cheio e um pires de leninismo bem tomado de sal e pimenta, animados pelas tropelias adolescentes dos jovens comunistas que, na sua maioria, só o serão até começarem a namorar com a filha daquele militante ferrenho do PSD, percebendo que o capitalismo até nem é tão mau como isso. E o Bloco de Esquerda onde um punhado de gente com ideias arejadas não consegue evitar ser abafado pela multidão que vota no Bloco de Esquerda porque é bem votar no Bloco de Esquerda, o movimento político com a maior concentração de óculos de massa em todo o mundo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Ó avôzinho, não te esqueceste dos Verdes?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Então e o que é que acontece agora? O coelhinho vai com o Pai Natal e o palhaço no comboio ao circo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Nada disso, minha neta. O circo é só em Fevereiro. Por enquanto, ficamos aqui sossegados a vê-los armar a barraca. &lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6678341-110281886793661447?l=atrasado-mental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/110281886793661447'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/110281886793661447'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atrasado-mental.blogspot.com/2004_12_01_archive.html#110281886793661447' title=''/><author><name>Salustio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06790931641188930562</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://2.bp.blogspot.com/_YQWGFPNE2b0/SYBiMPMz2dI/AAAAAAAAA6g/FePjZp0hUO8/S220/maca2.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6678341.post-110193581986620996</id><published>2004-12-01T21:15:00.000Z</published><updated>2004-12-01T21:18:23.626Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;A restauração de 1640&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi mais ou menos assim. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo começou com a morte do cardeal D. Henrique em 1580. Como nem este, por ser cardeal e sexagenário, nem D. Sebastião, por ser esquisito, deixaram sucessores, o trono de Portugal foi entregue ao rei Filipe de Espanha que se comprometeu a respeitar a independência do país, reinando separadamente em Espanha (como Filipe II) e em Portugal (como Filipe I). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a promessa não foi cumprida. Graças à inexistência de uma corte em Lisboa, a vida cultural estagnou e a aristocracia não podia estar senão descontente. Os impostos determinados por Madrid cedo se tornaram insustentáveis enquanto ingleses e holandeses se apropriavam de territórios portugueses na Ásia e América. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo assim, as coisas permaneceriam na mesma durante mais dois Filipes (o II e o III ou o III e o IV, dependendo da opção pela numeração nacional ou castelhana). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1637, nas altercações de Évora, a população daquela cidade alentejana revoltou-se contra as autoridades, forçando o rei a enviar tropas para serenar os ânimos à força de traulitadas. Este levantamento popular teve uma característica curiosa que foi a justificação da revolta com as queixas contra a administração espanhola de um conhecido maluquinho eborense. O nome desse maluquinho era Henrique Chaves.&lt;br /&gt;Não valeu de nada. Nada mudou e nada mudaria durante mais algum tempo. Foi preciso esperar sentado pelo dia da restauração. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele tempo, o monarca era representado em Portugal por um vice-rei, cargo ocupado pela prima de Filipe III (ou IV), a duquesa de Mântua. Em Espanha, nas vezes do rei, mandava o conde-duque de Olivares que, como era pouco dado a politiquices e se sentia melhor participando em conferências sobre doenças sexualmente transmissíveis e fazendo apelos sucessivos à calma e à tranquilidade, entregou o governo do país vizinho (dele, ou seja, o nosso) a um tal Miguel de Vasconcelos, conhecido marialva lisboeta em que muitos viam luzir grande talento para a causa pública, apesar de nunca ter dado mostras disso, antes pelo contrário. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Miguel pertencia àquele tipo de pessoas que gosta de aparecer mas que gosta de o fazer com um certo nível. Não lhe bastava tornar-se conhecido por aparecer na televisão ou por lançar suspeitas de sodomia infantil sobre celebridades da época junto dos padres do Santo Ofício (na altura, a Igreja ainda via com maus olhos o abuso sexual de menores). O ideal seria um cargo governativo que lhe permitisse, ao mesmo tempo, ir aparecendo e ganhando notoriedade e dar-se ares de quem está muito empenhado no bem comum (até porque não há mulher nenhuma, da rameira mais piolhosa à cortesã mais perfumada, que resista a um fidalgo prestável e cordato).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o nosso bom Miguel de Vasconcelos, fidalgote e bom rapaz, lá conseguiu chegar onde tanto queria, saltando de poleiro em poleiro. Começando como mentor de um grupo de mariolas que se divertia a jogar à bola ali para os lados do lugar de Alvalade, passando pelo areal da Figueira da Foz (já célebre no séc. XVII) e acabando por chegar ao destino mais almejado por qualquer pelintra minimamente ambicioso: Lisboa, sede tradicional do poder português e continuando a ser sede do pouco poder que por cá tínhamos em época de domínio espanhol. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando vagou a posição de “secretário de Estado do reino de Portugal” por o antigo titular ter fugido para terras da Flandres em busca de uma cura para a peste parvónica que o afectava, conseguiu que Olivares lhe desse o benefício da dúvida e o nomeasse em nome da manutenção da estabilidade e apesar de todos lhe dizerem que faria melhor serviço se atirasse o título para uma pocilga e deixasse que os suínos o disputassem/chafurdassem entre eles. Fez-se amigo da duquesa de Mântua, também muito amiga do outro (o que se pirou para Bruxelas), o que lhe valeu o repúdio dos seus pares pela prontidão em se aliar a alguém que sempre revelara um feitio torcido e oportunista e que nunca se coibira em semear injúrias entre a gente importante da lusitanidade oprimida, mesmo quando essas injúrias até nem eram tão injuriosas quanto isso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A respeito desta duquesa, caberia também tecer algumas considerações oportunas acerca dos vários motivos que a tornaram tão mal vista aos olhos dos nossos. Começou com a sua chegada ao país, numa época em que ainda nem se tinha sentado no cadeirão do vice-rei. Passeava-se pelas feiras, trocando os vestidos e as cabeleiras empoeiradas por trajes de lavrador, distribuindo beijos e apertos de mão desde a ralé mais miúda aos proprietários rurais mais abastados, sempre atenta às câmaras que por perto pudessem estar. Graças a isto, caiu no goto ao campesinato. Mas só até começar realmente a ter poder. Mal se viu instalada, a duquesa tratou de esquecer convenientemente as promessas feitas, fez o que pôde para piorar ainda mais a vida dos que a tinham apoiado, encomendou uma meia dúzia de submarinos modernaços e instalou-se num forte ali para os lados da marginal. Foi mais ou menos por esta altura que começaram a circular boatos de que a duquesa se passearia de noite por um pitoresco jardim público da capital, vestida de homem e com as feições disfarçadas por uma peruca de rolos que lhe chegava ao meio das costas. Era assim a duquesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltemos ao nosso homem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Miguel de Vasconcelos podia ser muita coisa mas não era parvo. Estava perfeitamente consciente de que, mesmo sendo muito folclórico e bem-falante, não percebia grande coisa dessas chatices da governação a não ser, claro está, que se tratasse da governação de saias e colchetes. Disso sabia ele o suficiente para aceitar aprendizes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Portanto, tinha duas alternativas. Ou se rodeava de gente competente que governasse por ele e cujos méritos eventuais pudesse assumir (o que era complicado porque, como já se disse, o país estava estagnado) ou arranjava uma pandilha de compinchas sem grande jeito para a coisa mas que lhe permitissem esquivar-se a responsabilidades, varrendo a culpa para debaixo do tapete de cada um destes. Foi isto o que fez. &lt;br /&gt;E os resultados foram o que não poderiam deixar de ser. Uma série infinita de desastres, embaraços, escândalos, polémicas e calamidades várias. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E como também não poderia deixar de ser, o povo, que já estava descontente, ainda mais descontente ficou. Aproveitaram-se disso os aristocratas que sempre quiseram pôr os espanhóis para fora e que só não o tinham feito antes porque não tinham condições para isso, ocupados que estavam em resolver questões de organização interna relacionadas com escutas telefónicas e prisões de barões de fidalguia elevada por motivos muito pouco nobres. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando as coisas se organizaram, estabeleceu-se a conjura com o objectivo de correr com o Filipe e seus sequazes para lá de Elvas e da vista de Badajoz. Eram quarenta os conjurados. Moviam-nos motivos variados. Desde a ânsia patriótica ao egoísmo da comodidade pessoal. Muitos participaram na conjura só porque não iam à bola com a cara de Miguel de Vasconcelos e da duquesa. E ninguém os pode censurar pois realmente não eram caretos que se apresentassem nem no corso carnavalesco mais desbragado. &lt;br /&gt;Fez-se a revolução. O povo saiu à rua. Os espanhóis, tomados de surpresa por tamanho entusiasmo, renderam-se. A duquesa de Mântua pôs-se ao fresco anunciando que, pelo menos, tinha acabado sozinha com o serviço militar obrigatório e que iria concorrer sozinha às próximas eleições enquanto que o conde-duque de Olivares estava ocupado com a visita a um centro de ocupação de tempos livres para idosos, apreciando a renda de bilros de uma septuagenária, e quando deu por ela já estava o facto consumado e pouco mais podia fazer do que assinar por baixo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre os revoltosos, escolheu-se um descendente do rei D. Manuel I, o duque de Bragança, para ocupar o trono. Dizia-se que este, o futuro rei João IV, também não era particularmente dotado para a governação mas, pelo menos, não vinha com uma duquesa anexada, o que já de si constituía uma melhoria. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quanto ao nosso Miguel de Vasconcelos? Bom... deram com ele escondido dentro dum armário armado com uma carabina. Desarmaram-no e atiraram-no por uma janela, sendo recebido com profunda estima e amizade pelos populares barulhentos que se amontoavam na rua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E assim terminou uma carreira política exemplar. Não viveram felizes para sempre mas não terá andado muito longe.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6678341-110193581986620996?l=atrasado-mental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/110193581986620996'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/110193581986620996'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atrasado-mental.blogspot.com/2004_12_01_archive.html#110193581986620996' title=''/><author><name>Salustio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06790931641188930562</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://2.bp.blogspot.com/_YQWGFPNE2b0/SYBiMPMz2dI/AAAAAAAAA6g/FePjZp0hUO8/S220/maca2.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6678341.post-110123698021715110</id><published>2004-11-23T19:03:00.000Z</published><updated>2004-11-23T19:09:40.216Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;A opinião faz o ladrão&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dizia uma personagem de um humorista muito conhecido, e que já não é de bom tom citar, que "as opiniões são como as vaginas. Cada qual tem a sua e quem quer dá-la, dá-la." Isto de cada qual ter a sua é discutível mas o assunto é outro. Há algum tempo atrás, um canal de televisão fez um programa em que pretendia medir a inteligência dos portugueses através das perguntas habituais em testes deste género, coisas como "Qual destes três animais tem menos a ver com os outros? A-Canguru; B-Elefante; C-Crocodilo; D-Parafuso." No entanto, escolheram a abordagem errada. Se alguém tentasse medir a inteligência dos portugueses pela quantidade de assuntos sobre os quais têm uma opinião formada, sem dúvida que seríamos imediatamente considerados os maiores cérebros da Europa e, possivelmente, do mundo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É impressionante. Portugal é o paraíso dos inquéritos de rua. Noutros países, avaliam-se as pessoas a olho para se ter a certeza de que se vai falar com alguém que tenha alguma coisa a dizer a respeito do assunto em questão. Cá não é preciso. Independentemente de idade, sexo, profissão, nível social, habilitações académicas, todos os portugueses têm alguma coisa a dizer sobre todos os assuntos que possam passar pela parte do cérebro que, após milénios de evolução, ficou incumbida de idealizar inquéritos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pensemos num português-tipo e chamemos-lhe Inácio. Ora, o Inácio tem 36 anos, é casado, tem duas filhas, é torneiro mecânico, faz uma perninha quando pode nos bombeiros voluntários, vai à bola ao sábado à noite e passa as tardes de domingo numa esplanada a comer caranguejo, quando o tempo ajuda, ou em casa, em frente à televisão, a ver fórmula 1 e os resumos do campeonato eslovaco, quando o tempo não está de feição. Faça-se uma pergunta ao Inácio sobre a política fiscal do governo e este prontificar-se-á a responder qualquer coisa como “Eu acho que ‘tá mal um gajo ter de pagar ao Estado para trabalhar. Eu sei que é preciso por causa dos hospitais e das auto-estradas mas devia haver outra maneira. É só isso que tenho a dizer.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Óptimo. Chegamos à conclusão de que o Inácio já passou algum tempo a reflectir sobre o assunto ou até a discuti-lo com os amigos entre tremoços e imperiais. Passemos ao assunto seguinte. O que achará o Inácio da fruta transgénica? “Epá, um gajo quando compra fruta é porque acha que aquilo lhe vai dar saúde. Se é para apanhar doenças, não compra. É só isso que tenho a dizer.” Também terá reflectido sobre isto? Então e sobre a situação no Médio Oriente? “Os gajos têm que se entender. É como nós e os espanhóis. Dantes também andávamos sempre à solha e agora damo-nos bem. É só isso que tenho a dizer.” A exploração do planeta Marte? “Acho que fazem bem para o caso de a Terra explodir. Assim já tínhamos sítio para ir morar. É só isso que tenho a dizer.” Podíamos continuar mas tornar-se-ia entediante. O Inácio terá algo a dizer sobre todos os assuntos de que nos consigamos lembrar, da física quântica ao cinema experimental búlgaro, da egiptologia ao hóquei em patins.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E é assim que funcionam todos, ou a maior parte, dos portugueses. O que explica este comportamento invulgar? É muito simples. Os portugueses não conseguem, por mais que tentem, admitir a sua ignorância sobre um assunto. Estão geneticamente impedidos de o fazer. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pense-se bem no assunto. Então e os “não sabe/não responde”? Num inquérito há sempre uma percentagem de gente que “não sabe/não responde.” Será que isso deita por terra a minha argumentção? Não. E passo a explicar. Para já, é necessário separar os “não sabe” dos “não responde.” Os “não responde” escusam-se a partilhar a sua opinião com o mundo por casmurrice, porque têm pressa, porque não gostam de aparecer na televisão ou por outro motivo qualquer. Não é que não a tenham. Os “não sabe” é que talvez estejam mais perto de uma legítima assunção de ignorância. Talvez. Não estão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma boa parte das perguntas que obtêm respostas “não sabe” são do tipo: “O que acha do sexo anal?” Não há resposta não porque não se saiba nada do assunto mas devido ao síndroma “o que é que a vizinhança/a minha família/o pessoal lá do trabalho vai pensar de mim?” Logo, opta-se por não responder. É uma questão de segurança. E repare-se que não é medo de fazer figura triste. O português-tipo diz que “a guerra fria fez bem em ter acabado derivado ao preço do petróleo” com a maior das convicções. Não é bem isto? Então que se lixe! A culpa não é dele. É da sociedade que o tirou da escola para ir trabalhar e o obriga a ver televisão até os miolos se começarem a liquefazer. O problema aqui é apenas pudor. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma outra portuguesa-tipo, a Maria do Carmo, sabe muito bem o que quer dizer “fellatio”, até porque é uma leitora assídua do consultório sentimental das revistas, mas recusa-se a admiti-lo por pudor e porque tem de encarar as vizinhas no supermercado no dia seguinte (todas elas sabem o que quer dizer “fellatio” mas todas se recusam a admiti-lo com excepção da Ivone que é uma porca). A vergonha e o medo da reacção alheia arrumam uma boa parte dos “não sabe.” Quanto ao resto, a explicação é ainda mais simples. Quando alguém faz um inquérito e obtém uma resposta “não sei,” aceita-a e passa ao próximo. Faz mal. Há pessoas que cultivam a falsa modéstia e precisam de alguma insistência. Ai não que não sabem. Dê-se um incentivo, um breve “vá lá” basta, e é ver a opinião a jorrar qual rio Nilo dos factos trocados. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E onde quero eu chegar com isto tudo? É que acredito sinceramente que a vida no país seria melhor se existissem menos opiniões, se programas como o forum da TSF tivessem de acabar por falta de clientela ou se os rodapés dos programas de televisão passassem vazios de SMS. Mas isto é só a minha opinião. Gostava de saber a vossa.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6678341-110123698021715110?l=atrasado-mental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/110123698021715110'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/110123698021715110'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atrasado-mental.blogspot.com/2004_11_01_archive.html#110123698021715110' title=''/><author><name>Salustio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06790931641188930562</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://2.bp.blogspot.com/_YQWGFPNE2b0/SYBiMPMz2dI/AAAAAAAAA6g/FePjZp0hUO8/S220/maca2.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6678341.post-110054293955286485</id><published>2004-11-15T18:20:00.000Z</published><updated>2004-11-15T18:40:30.826Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;1,2,3... 4&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Portugal, anos 80. Uma segunda-feira como tantas outras. Noite cerrada de Inverno. A família Silva reúne-se frente à televisão para a celebração de um ritual semanal. Uma bota roxa saltitante canta uma cançoneta e cede lugar ao sorriso de Carlos Cruz que, como sempre, os saúda com um cordial “senhores espectadores, muito boa noite, bem-vindos a mais uma edição do 1,2,3.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A seguir, entram os concorrentes, sempre em casalinho, e começa a diversão. Primeiro, as perguntas (“um, dois, três, diga lá outra vez”), depois a prova de destreza física (já com um casal eliminado) e finalmente o momento mais desejado (“senhores espectadores, não saiam dos vossos lugares, voltaremos dentro de momentos para a terceira e última parte do nosso Um, Dois, Três desta noite”). Havia músicos convidados, números de bailado e momentos de humor com Carlos Cunha e Marina Mota, Carlos Miguel (o Fininho) ou Herman José. Tudo subordinado ao tema de cada programa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era quase como ver um jogo de futebol. Se o casalinho fosse simpático, torcia-se para escaparem aos prémios menos bons e irem para casa com o cobiçado “fantástico automóvel.” Se não fossem, era rir ao ver a cara que faziam quando eram informados de que, depois de tanto esforço, voltavam para casa com a Bota Botilde e com um saco de areia da praia. A sorte deles é que havia quase sempre um “E AINDA” que, à última hora, acrescentava ao prémio uma viagem à volta do mundo ou um baú cheio de libras de ouro oferecido pelo Cola-Cao.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bons tempos... mesmo só com dois canais. Os tempos passam, fica a nostalgia.&lt;br /&gt;Nostalgia que a RTP soube aproveitar com mais uma encarnação do “1,2,3.” Não é a primeira vez que se tenta recriar o sucesso original. Até António Sala, para quem não se lembrar da figura, é uma espécie de Carlos Cruz com bigode e do Benfica, já fez um jeitinho como anfitrião do mítico concurso. E até nem se saiu nada mal. &lt;br /&gt;Quem se sai mal, e muito, é Teresa Guilherme, a nova apresentadora. Passar de Carlos Cruz a António Sala e deste a Teresa Guilherme, usando uma metáfora futeboleira, seria o mesmo que substituir Vitor Baía por Moreira na baliza da selecção nacional e substituir Moreira pela Madre Teresa de Calcutá. Morta e tudo.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É verdade que Carlos Cruz talvez não fosse uma boa opção nesta altura, mesmo que o programa fosse gravado em sua casa e com público composto exclusivamente por maiores de dezasseis anos, e que António Sala anda ocupado demais a explicar aos amigos benfiquistas por que fez parte da direcção de Vale e Azevedo, mas não havia mais ninguém? Até o jeito de “palerma mas bom rapaz” de Jorge Gabriel era preferível à histeria berrante e cabeluda de Teresa Guilherme. Sobretudo, porque não se trata de um programa da TVI ou da SIC mas sim de algo pago com dinheiros públicos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os mesmos dinheiros públicos usados para pagar, num passado recente, Luísa Castel-Branco, Júlia Pinheiro e João Baião. E que voltam a pagar este último já que é um dos “humoristas convidados” (leia-se: “VALHA-ME DEUS! ALGUÉM OS FAÇA PARAR, POR FAVOR!”) juntamente com o paquiderme da galhofa, Miguel Dias e, entre outros, com um rapazola com cara de rato que até tem jeito para imitar vozes (E daí? Tenho um tio que imita na perfeição a voz de Oliveira Salazar a ser sodomizado pelo Bonga e não me passa pela cabeça vê-lo na televisão).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O formato não anda muito longe do original, exceptuando o pormenor imperdoável de substituírem a amistosa Bota Botilde por uma abóbora que não inspira confiança a ninguém. Parece que tem pergaminhos do outro lado da fronteira mas por cá ninguém a conhece e é isso que interessa. Como diz o povo: de Espanha, nem bons ventos nem abóboras antropomórficas de Belzebu. Mas, se as cabeças pensantes da RTP, acreditaram alguma vez que repetir o formato equivalia a repetir o sucesso de outros tempos, podem tirar a Ferreirinha da chuva. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até pode ter audiências (os portugueses já demonstraram em várias ocasiões que têm uma capacidade infinita para engolir qualquer merda que lhes vendam com a promoção adequada) e até pode continuar a ser o programa preferido dos casalinhos pré-casadoiros (é giro tentar adivinhar qual dos casamentos durará menos tempo e qual terá uma separação mais violenta pela forma como os futuros cônjuges discutem se hão-de rejeitar primeiro a varejeira de esferovite ou a bota da tropa) mas este “1,2,3” é das maiores aberrações televisivas que pelos écrans pátrios têm passado. E isto é dito num país cuja produção televisiva é uma verdadeira ilha do Dr. Moreau. Companhia não lhe faltará.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos últimos anos, tem-se feito notar na “nossa televisão” um fenómeno curioso. Parece haver uma relação directa entre o aumento do número de referências feitas ao serviço público e ao favor que a RTP nos faz pelo simples facto de existir e o decréscimo vertiginoso da qualidade da programação. Há já muito tempo que as coisas não estão bem mas havia sempre qualquer coisa que ia salvando a honra do convento. Se olharmos para produção nacional presente na programação actual da RTP 1, não há nada que consigamos descrever como “menos mau.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muda-se de instalações, fazem-se investimentos, modernizam-se as casas-de-banho para que não se voltem a entupir os canos com preservativos como aconteceu no edifício da 5 de Outubro, fazem-se reestruturações mas a porcaria é sempre a mesma com tendências para piorar a passos largos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não que isto queira dizer mais, em termos práticos, do que o que já todos sabem há muito (que o dinheiro dos contribuintes é mal aplicado em mais áreas do que na televisão). Enquanto se puder enfiar um alguidar pela cabeça abaixo e fazer de conta que as coisas não poderiam estar melhores e enquanto houver capacidade para fazer o público acreditar nisso, menos mal. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para os que leram até aqui a pensar “Isto hoje não tem piada nenhuma! Onde é que está a graça?”, informo que a graça vem já a seguir. É a sinopse do “1,2,3” retirada da página da RTP. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style:italic;"&gt;‘O "1,2,3" é um formato de entretenimento familiar em que o suspense e a boa disposição são elementos chave, mas em que a dignidade da pessoa humana está salvaguardada. No essencial o "1,2,3" mantém a fórmula que o transformou num dos "game-shows" de referência da televisão. Os pares de concorrentes, que serão sempre casais, competem em várias eliminatórias até que um deles vai jogar o desafio final onde tem que escolher sucessivamente uma das várias ofertas. "1,2,3" está ainda muito presente na memória dos espectadores acima dos 40 anos, agora a prioridade passa pela captação de públicos mais jovens.’&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hilariante, não é?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6678341-110054293955286485?l=atrasado-mental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/110054293955286485'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/110054293955286485'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atrasado-mental.blogspot.com/2004_11_01_archive.html#110054293955286485' title=''/><author><name>Salustio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06790931641188930562</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://2.bp.blogspot.com/_YQWGFPNE2b0/SYBiMPMz2dI/AAAAAAAAA6g/FePjZp0hUO8/S220/maca2.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6678341.post-109941688993475372</id><published>2004-11-02T17:32:00.000Z</published><updated>2004-11-02T17:34:49.936Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Bom dia!&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É fácil falar mal. Qualquer pessoa mais biliosa o faz. Falar bem já não é assim. Falar bem exige uma técnica específica que é difícil de adquirir. Sobretudo se não houver motivo nenhum para falar bem. Nesse caso, são necessários anos de experiência em campos tão diversos (ainda que interligados) como o da bajulação, da mentira piedosa ou da falta total de carácter (elemento que permite dizer qualquer coisa sem remorsos) ou actividade cerebral (que substitui o elemento anterior na perfeição). Os especialistas na área chegam a desenvolver problemas na língua devido às superfícies menos prazenteiras que são forçados a lamber durante as suas longas carreiras de “bendizentes” profissionais. E do sabor a caca nunca mais se livram.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Para variar um bocado, e para que não se diga que aqui só se fala mal, passo a expor as qualidades inegáveis dos programas televisivos matinais, os efeitos positivos que têm na sociedade e uma pequena sebenta com informação útil para todos os que queiram lançar-se no mundo fascinante da televisão e mais especificamente neste subgénero.&lt;br /&gt;O que a seguir direi é fruto de uma reflexão intensa de vários segundos feita entre o abraço coreografado de Sónia Araújo a uma avó septuagenária de Avintes acompanhado por um dueto do padre Borga com Jorge Gabriel, o diálogo telefónico entre um pato de peluche e uma desempregada de longa duração, e os guinchos estridentes da mariazinha televisiva em que a TVI transformou Manuel Luís Goucha sem grande resistência do próprio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Falemos das qualidades. Os três programas têm em comum o facto de terem público em estúdio e de terem audiências consideráveis. Sendo universalmente aceite que uma pessoa normal nunca conseguiria suportar mais do que alguns minutos de cada vez, e mesmo esses só com instintos masoquistas apurados, o que seria do país se, por exemplo, o público do “Você na TV” da TVI andasse em liberdade? Não me enganei. Era mesmo isto que queria dizer. Porventura pensavam que se tratava de pessoas que se dispunham a assistir ao programa e que, depois de terminado, iriam à sua vida? Desenganem-se. Ou nunca repararam na frequência com que as caras se repetem no público dos três programas? E o argumento de que “os mongolóides são todos iguais” é falso, cruel e não deverá ser usado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que se passa é que a SIC, a TVI e a RTP possuem calabouços onde mantêm enclausurados homens e mulheres (mais mulheres do que homens mas só por acaso) com sérios problemas mentais e que, depois de medicados, se tornam mansos como cordeiros e facilmente manipuláveis, ou seja, o público televisivo ideal. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Claro que não é pelo infortúnio de terem nascido marcados pelo estigma da anormalidade que merecem ser maltratados e o que a SIC faz ao público do “SIC 10 Horas,” enclausurando-o ao lado de Óscar Branco ainda que em jaulas separadas mereceria a atenção de algum organismo de defesa dos direitos dos anormais.  &lt;br /&gt;Agora pense-se no que aconteceria se esta gente vagueasse pelas ruas do país? Pelos nossos vales tão verdes, praias de areia fina e centros comerciais do mais puro betão? Centenas de donas-de-casa tresloucadas enchendo as ruas e exigindo electrodomésticos autografados pelo elenco dos “Morangos com Açúcar.” E o mesmo é válido para as multidões que se mantêm tranquilas e sem tentar morder o próximo no conforto dos seus lares enquanto vêem o seu programa preferido pela televisão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É isto o verdadeiro serviço público, meus amigos. Que se prolonga para lá das manhãs com os programas da tarde (um subproduto dos programas matinais e com moldes semelhantes) como o “Portugal no Coração” ou o “Às Duas por Três.” Graças aos esforços de Jorge Gabriel, Sónia Araújo, Fátima Lopes e o seu ventríloquo e Manuel Luís Goucha e a sua loura deslavada (em colaboração com os esforços de José Carlos Malato, Merche Romero, Fernanda Freitas, José Figueiras, Cláudio Ramos e mais uma ou duas badalhocas cujo nome agora me falha) o país é um sítio mais aprazível para se viver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No entanto, é sabido que o ser humano é uma criaturinha frágil e que mesmo alguém com um valente esquadrão de anticorpos não consegue suportar a exposição a doses tão elevadas de imbecilidade solidificada e com frequência diária a que os bravos profissionais se sujeitam. Se Manuel Luís Goucha morresse de repente, quem o substituiria depois dos cinco dias de luto nacional e mínimo de dois meses de participação obrigatória nos grupos municipais de choro cívico? Pensando nessa infeliz eventualidade, decidi partilhar convosco, o público em geral, alguns conhecimentos preciosos retirados directamente das páginas centrais do “Grande Livro da Televisão de Merda,” obra de referência essencial para o profissional da televisão que se preze e que não se vende nas livrarias. As poucas cópias que existem em Portugal foram manuscritas em páginas feitas da pele de Luís Pereira de Sousa curtida com o sol a que se expunha na apresentação de programas em directo da praia. Ao fazê-lo, espero que Portugal possa contar sempre com gente capaz de conceber, produzir e apresentar um programa matinal, mantendo assim os níveis de sanidade mental nos padrões aceitáveis em que hoje se encontram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A primeira coisa a fazer é escolher o tipo de abordagem. Se, à primeira vista, os três programas matinais que hoje temos parecem ter apenas diferenças superficiais, nota-se após análise mais cuidada que cada um tem uma forma de abordagem do conceito de telemanhã. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para facilitar a explicação da diferença nas abordagens a que me refiro, recorrerei a um exemplo. Imaginemos que uma desempregada quarentona, viúva e mãe de cinco filhos liga para os três programas. Ao ligar para a “Praça da Alegria,” a chamada seria recebida com música e folia, Jorge Gabriel agarrado à barriga de tanto forçar o riso, Sónia Araújo a tentar perceber de que ri o colega e sorrindo pelo sim pelo não, palhaços, gente a dançar, um verdadeiro Carnaval. Mal descobrissem a precaridade da situação da telespectadora, a alegria da praça não esmoreceria. Antes pelo contrário. Jorge Gabriel e Sónia Araújo juntar-se-iam para explicar cantando que o pior já passou e que, dali para a frente, as coisas só podem melhorar e que o importante é ter espírito positivo e nunca desistir de lutar. O padre Borga aproveitaria a deixa e acrescentaria uma daquelas mensagens absurdas em que os sacerdotes católicos são especialistas: “Lembre-se que o amor é a coisa mais importante da vida e que Cristo é amor e o amor sem Cristo vale tanto mais ou menos do que Cristo sem amor na paixão e na alegria.” De seguida, chamar-lhe-iam “minha querida” entre sorrisos e mandariam “beijinhos” entre acenos e mais sorrisos ainda. Mal a chamada fosse desligada, a banda residente irromperia num medley musical improvisado a partir do nome e da história de vida da espectadora. É a abordagem positiva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se a nossa viúva pouco alegre ligasse para o “SIC 10 Horas,” a coisa seria diferente. De início, o clima de folia seria idêntico ou ainda mais intenso com Fátima Lopes a esfalfar-se para conjugar o potencial irritante de Sónia Araújo e Jorge Gabriel numa única pessoa e com um pato amarelo enfiado no braço de um ventríloquo terrível a fazer as vezes de padre Borga (e com grande competência, diga-se). Mas, assim que os pormenores menos agradáveis da vida da espectadora fossem revelados, os sorrisos seriam de imediato substituídos por uma expressão de pesar e por suspiros entrecortados com o ocasional “isso é que é pior.” Pedir-lhe-iam pormenores. Quando é que lhe morreu o marido. De quê? Como vai de saúde? E os filhos dão-se bem com a escola? A seguir, esforçar-se-iam por lhe dar uma torradeira num concurso qualquer e mandá-la-iam à sua vida, lembrando que “infelizmente ainda há muitos casos assim no país” antes de entrar Óscar Branco e começar a imitar uma peixeira do Bolhão. É a abordagem realista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalmente, se o destino da chamada fosse o “Você na TV,” substituto do “Olá Portugal” também com Manuel Luís Goucha mas sem a muleta loira, a coisa tornaria a mudar de figura. Goucha tem o condão de ser genuinamente emotivo, o que quer dizer que não precisa de fingir este ou aquele estado de espírito. Ficaria genuinamente feliz por estar a trocar impressões com a espectadora, mostrar-se-ia realmente interessado (como boa comadre que é) nos pormenores da sua desgraça e a solidariedade e os incentivos que se seguiriam seriam igualmente genuínos. O que esta abordagem tem de único viria a seguir. Seria feito um apelo a possíveis empregadores que pudessem contratar a viúva e a solteirões com posses que pudessem acabar-lhe com a viuvez carenciada em mais do que um aspecto. Pedir-se-iam informações a quem soubesse do paradeiro do fiel rafeiro da família desaparecido há duas semanas e oferecer-se-ia um computador para melhorar o desempenho escolar das crianças e uma cadeira de rodas porque é sabido que, quando as desgraças começam, ninguém as consegue parar. É a abordagem interventiva. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escolhida a abordagem, restaria aplicar os elementos comuns: o carinho e a atenção para com os idosos e donas-de-casa (afinal de contas, o público-alvo), a promoção patrioteira e cega do país e de tudo o que temos de bom e de mau que passa a ser bom porque sim, a música ao vivo, os passatempos por telefone de forma a assegurar uma certa interactividade sempre desejável, os consultórios astrológicos, o público sempre animado (recorrendo-se a choques eléctricos para garantir a animação se necessário) e por aí fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, é claro, os convidados. Qualquer uma destas abordagens implica convidados mas o &lt;br /&gt;tipo de convidado a escolher varia de acordo com a abordagem. Na abordagem positiva da “Praça da Alegria” dá-se preferência a avózinhas com muitos netos, a deficientes e a adeptos do coleccionismo. Na abordagem realista do “SIC 10 Horas” existe uma preferência pelos dramas reais com convidados que tenham escapado a acidentes potencialmente letais, gente que tenha sobrevivido a doenças incuráveis, esposas espancadas, filhos que assumiram a homossexualidade e foram expulsos de casa pelos pais etc. Quanto à abordagem interventiva do “Você na TV,” os padrões não são tão rígidos e os convidados tanto podem ser vedetas de produções da TVI, artistas de áreas variadas, gente com apelidos idiotas, velhos que se apaixonaram no centro de dia, irmãos desavindos, filhos que encontram os pais pela primeira vez e por aí fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com esta informação, qualquer leitor ficará equipado com as ferramentas essenciais para criar o seu próprio programa televisivo matinal. Resta-lhe combinar os vários ingredientes e temperar a gosto com o carisma pessoal de cada um. Fico à espera dos resultados. Votos sinceros de boa sorte para todos vós. &lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6678341-109941688993475372?l=atrasado-mental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/109941688993475372'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/109941688993475372'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atrasado-mental.blogspot.com/2004_11_01_archive.html#109941688993475372' title=''/><author><name>Salustio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06790931641188930562</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://2.bp.blogspot.com/_YQWGFPNE2b0/SYBiMPMz2dI/AAAAAAAAA6g/FePjZp0hUO8/S220/maca2.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6678341.post-109865528072287158</id><published>2004-10-24T22:47:00.000+01:00</published><updated>2004-10-26T03:39:22.346+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;A Ferreirinha&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Camilo Castelo Branco não teve uma vida feliz. O muito talento que tinha nunca lhe foi reconhecido em vida. O espírito crítico venenoso conquistou-lhe a admiração de um punhado de contemporâneos e o ódio da maior parte. Foi preso por se ter apaixonado por quem não devia, perdeu a visão e pôs fim à vida com um tiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o pior ainda estava para vir. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais de cem anos depois da sua morte, Camilo ver-se-ia como personagem da série “A Ferreirinha” que a RTP durante tanto tempo anunciou como algo de sublime e que, afinal, é apenas mais do mesmo. Tivesse o escritor vivido na nossa época e veria que até os destinos mais trágicos podem ter um lado bom. Se a perda da visão o impedia de se dedicar à leitura e à escrita, de igual forma o pouparia a ver a triste figura de João Reis e Catarina Furtado como uma espécie de versão carnavalesca do desgraçado par romântico. Para o poupar aos diálogos, um sofrimento igualmente atroz, poderia sempre enfiar um lápis em cada ouvido até perfurar os tímpanos. A dor resultante não seria nada comparada com a tortura que é ver um episódio da “Ferreirinha” até ao fim.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;De igual forma, não precisaria Camilo de revólver para pôr fim à vida se vivesse entre nós e fizesse parte dessa grande massa anónima e amorfa a que pertence a “nossa televisão.” Vinte minutos de “Ferreirinha” e alguém com a sensibilidade de Camilo não resistiria a uma morte implacável provocada ou pelo horror ou por um ataque fulminante de riso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque uma qualidade consegue ter esta “megaprodução.” Os actores não precisam de falar para se perceber que algo está horrivelmente mal. Seja-lhe reconhecido o mérito de ser uma série honesta e que não engana ninguém. Aquilo que “A Ferreirinha” parece ser à primeira impressão corresponde de forma exacta ao que é realmente. A calamidade televisiva nota-se de imediato nas pequenas coisas. Nos ambientes de reconstituição histórica feita à antiga portuguesa (em cima do joelho) com um barril ali ao canto para tapar a boca de incêndio e um monte de palha estrategicamente espalhado por cima de uma tampa de esgoto. No guarda-roupa artesanal ou, o que a série tem de melhor, na assombrosa variedade de adereços capilares postiços que adornam os actores masculinos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dos mais emblemáticos é precisamente a bigodaça de Camilo (João Reis), o resultado de uma noite louca de convívio entre o bigode amputado a Artur Jorge e uma toupeira atropelada. Mas também merecem igual respeito as patilhas do feitor Silva Torres, dois punhados de lã colados à cara do actor António Capelo ou a bigodaça aerodinâmica e tremelicante do Duque de Saldanha. Menção honrosa para a barba de Zé Povinho ostentada por Carlos Alberto Moniz, a prova viva de que é sempre bom avaliar os talentos para a representação das nossas celebridades sem medo de que o resultado possa ser embaraçoso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E talvez seja este o adjectivo que melhor qualifica a “Ferreirinha.” É uma produção embaraçosa a todos os níveis. O elenco é incapaz. Mesmo os poucos actores que se poderiam salvar acabam contaminados pela atmosfera de imbecilidade historicamente reconstruída. Francisco Moita Flores parece decidido a piorar a qualidade do seu trabalho com cada novo projecto em que se envolve, qualidade que já andava muito longe de impressionar aquando das primeiras incursões televisivas e que agora nem a exibição gratuita e constante dos seios das actrizes salva. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem poderá esquecer o diálogo traumático entre Dona Antónia e Silva Torres em passeio pela vinha, dizendo-lhe esta que o vinho português é dos melhores do mundo porque está temperado com as lágrimas da gente que trabalha a terra? Ou os arremedos românticos choramingueiros de Camilo e Ana Plácido, qual casalinho de pombos mongolóides? E claro, o momento em que Camilo, já preso na Cadeia da Relação, pergunta o nome ao seu carcereiro que, após alguma hesitação, lhe diz que, se precisar de alguma coisa, pode chamar pelo Zé... Zé do Telhado. James Bond põe-te a pau.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Longe de ser a maravilha televisiva que a RTP tenta vender com as promoções constantes e com o apregoado “selo de qualidade” conferido pela autoria de Moita Flores, “A Ferreirinha” está mais próxima de uma produção artesanal de timbre quase venezuelano (não sei se o “quase” é por excesso ou por defeito) com argumento de alguém sublimado pela escassez de elementos de comparação como tantas vezes acontece por cá e em áreas tão diversas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Usando uma metáfora vínica apropriada à história de uma mulher que dedicou a vida ao Vinho do Porto, a questão essencial é muito simples. “A Ferreirinha” falha como falham alguns vinhos.  E a explicação mais frequente para o fracasso dos vinhos é a falta de qualidade das uvas. Da mesma forma que não se podem fazer bons vinhos com más uvas, é impossível fazer boa ficção televisiva sem talento. &lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6678341-109865528072287158?l=atrasado-mental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/109865528072287158'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/109865528072287158'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atrasado-mental.blogspot.com/2004_10_01_archive.html#109865528072287158' title=''/><author><name>Salustio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06790931641188930562</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://2.bp.blogspot.com/_YQWGFPNE2b0/SYBiMPMz2dI/AAAAAAAAA6g/FePjZp0hUO8/S220/maca2.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6678341.post-109819091459540003</id><published>2004-10-19T13:05:00.000+01:00</published><updated>2004-10-19T14:01:54.596+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="font-weight:bold;"&gt;Os campeões&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os campeões maravilharam o mundo. Com a sua maneira de jogar, com jogadores esforçados e modestos, com treinadores que sabiam o que queriam e para onde iam, com o domínio das competições do seu país de origem durante mais de dez anos, com os títulos conquistados lá fora, com os recordes que bateram, com o que evoluíram ao longo dos anos, deixando de ser um clube esforçado que ganhava um ou outro título por acaso para se assumir como a grande potência do jogo, ultrapassando com mérito os velhos colossos que, por culpa própria, se foram deixando mergulhar num estado de degradação patológica cujos primeiros sintomas se começaram a notar há décadas.  &lt;br /&gt;Reconhecidos que estão os méritos dos campeões e sempre com a consciência de que o que aqui for dito será visto por alguns como demonstração de “mau perder” e inveja de alguém cuja simpatia futeboleira não reside com os campeões mas com os “outros,” há uma ou duas coisas a dizer. A imparcialidade nestas coisas é praticamente impossível mas acredite quem quiser que está a ser feito um grande esforço. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi golo. Pronto. Isto já está resolvido. E até mesmo quem acha que os vários ângulos não permitem avaliar a coisa em condições sabe lá no fundo da consciência que foi e que quando a bola bate em cima da linha e vai para dentro da baliza, não há grande volta a dar-lhe (excepto a volta desesperada de um guarda-redes que já foi excelente a tentar disfarçar sem grandes esperanças a asneira cometida e longe de esperar que lhe saísse a sorte grande). Os penalties também eram mesmo penalties e um ou outro jogador devia ter sido educado com cartões didácticos que lhe ensinassem quais as cores primárias para além do azul das suas camisolas. Mas o que lá vai, lá vai. O jogo é mesmo assim, errar é humano, ninguém é perfeito, quem tem boca vai a Roma e os outros ditos costumeiros que se costumam usar nestas ocasiões e que estão todos igualmente carregados de sabedoria popular dificilmente desmentível. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda por cima, é sabido que os árbitros que temos padecem da mesma incompetência que afecta por cá tanta gente com actividades diferentes e que, com o clima de guerra civil que rodeia o que não devia deixar de ser apenas um jogo, a solução mais fácil é sempre beneficiar o clube com mais adeptos, minimizando assim as críticas que virão depois. Tudo normal. Infeliz mas normal. O pior é quando a balança dos erros está tão desequilibrada para um dos lados e quando há a impressão notória de que há uma equipa que joga com rede de segurança, consciente de que, mesmo que as coisas corram mal, não há-de ser nada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi então que alguém se lembrou do guarda Abel. E das visitas de dirigentes de um clube ao balneário dos árbitros antes deste ou daquele jogo. E das viagens de Carlos Calheiros ao Brasil feitas pela Cosmos e cujas facturas apareceram por engano na contabilidade do clube. E dos apitos com banho de ouro tão depressa silenciados (como se sabe, é fácil calar um apito; basta tirar-lhe a bolinha que tem dentro e que normalmente é feita de cortiça, o mesmo material de que são feitas as rolhas). Tudo boatos de mau gosto lançados por algum encarnado ou esverdeado mais empedernido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou não? Tudo isto veio nos jornais, foi discutido por gente séria q.b., fizeram-se queixas, foram expostos argumentos e em nenhuma destas e de outras situações a situação ficou esclarecida. Ao invés, sucedeu o que costuma suceder neste país quando se tenta esclarecer uma questão incómoda. Deixou de se falar no assunto e esperou-se que surgisse acontecimento mais mediático para abafar tudo convenientemente com um pedregulho em cima. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Haverá explicação? Quando se acusa alguém sério e honesto, parece-me que quem estará mais interessado em esclarecer as coisas será o acusado (interessado mas não obrigado, visto que a prova compete a quem acusa), para que não restem dúvidas quanto à seriedade e honestidade que são postas em causa. Por mais voltas que dê, não consigo perceber porque, sempre que se fazem acusações do mesmo género ou de outros a gente de clubes não-campeões, as pessoas que neles mandam apressam-se a aparecer na televisão, nos jornais e em todo o lado onde deviam e não deviam aparecer a fazer escarcéu e a bradar acusações de cabala e a atirar provas de inocência ao ar, fazendo escandaleira digna de uma lota. E, algumas vezes, mentindo ou não dizendo toda a verdade (que acaba quase sempre por vir ao de cima). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No caso dos campeões, nada. Piadinhas de melhor ou pior gosto. Bocas. Ou então, quando a coisa é realmente grave, explicações gaguejadas e nervosas que não convencem ninguém. Quando a coisa se torna grave demais para explicações, há silêncio. O tal blackout de que as gentes ligadas a jogo tanto gostam. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porquê? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O emblema não merece? A instituição centenária que representam também não? Nem merecem a cidade e a região que pretendem representar e que tantas vezes usam como arma de arremesso para escapar a questões mais incómodas? Que raio terão a esconder de tão sinistro que faz com que suportem e alimentem suspeitas que fariam corar a Máfia Calabresa? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois surgem os boatos. Cada um mais rebuscado do que o anterior e sucedendo-se de tal modo que se torna difícil saber onde acaba a calúnia rancorosa e onde começa a verdade. Quem manda, não se interessa muito em desmenti-los. Em vez disso, um comportamento de rufia vindo da mais alta instância dá o exemplo, fazendo com que, num país onde a maioria da população já não morre de amores pelos campeões por defeito de fabrico, o clube e os seus adeptos (a maioria que paga por uma micro-minoria insignificante mas com direito a exposição mediática) ganhem a injusta reputação de bando de arruaceiros. Algo que não sucede nos outros clubes com dimensão semelhante (pelo menos, entre si) que também têm os seus dirigentes que dizem qualquer porcaria que lhes passe pela cabeça e os seus grupos de delinquentes juvenis de estimação e com direito a patrocínio oficial. Porque, apesar de tudo, não se alimentam suspeitas. Podem presidentes, administradores, treinadores adjuntos e principais berrar o que quiserem que ninguém os leva a sério. É o colorido típico das gentes do jogo. E quando há suspeitas de qualquer irregularidade, são investigadas, e os culpados são castigados como aconteceu muito recentemente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É isto que gostava que me explicassem: por que é que não se acaba de uma vez por todas com os boatos, transformando-os em mentiras simples e inofensivas? Porque não há indícios? Errado. Há indícios. Porque não há provas? Errado. Há provas. Porque não há queixas nem testemunhas? Errado. Há quem se queixe (para além dos imbecis do costume) e há quem dê mostras de saber coisas a respeito do assunto. Que raio falta aqui para além da investigação policial? É porque não é credível? Que mais falta para ser credível? Não é bizarro que a corrupção seja uma religião com mais fiéis em Portugal do que o tal catolicismo não-praticante e que se manifeste em todos os sectores menos no futebol? O que torna o futebol imune a subornos, cunhas e ajudinhas? Alguém se apresse a estudar este fenómeno para que possamos aplicar a mesma vacina ao resto da sociedade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No fundo, é outra vez aquele hábito tão nosso de não querer mergulhar muito no charco para não corrermos o risco de ficar atolados no lodo. Nademos de bruços à superfície e deixe-se lá estar a imundície acomodada nas profundezas onde não incomoda quase ninguém. Há gente importante que gosta de crianças de uma forma pouco saudável mas é melhor deixar tudo como está. Prenda-se um desgraçado qualquer para aplacar as multidões e deixem-se as coisas correr lentamente e em silêncio para que a embrulhada seja esquecida e se possa restaurar o bom nome de quem o não merece. Prendam-se árbitros obscuros e dirigentes do Leça mas mais não. Ainda começava para aí uma guerra civil e depois era o cabo dos trabalhos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou então, levem-se as coisas a sério e chegue-se a uma conclusão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se a conclusão a que se chegar, quando estiver tudo acabado, for a de que não há verdade nas suspeitas, então óptimo. Ficamos todos mais felizes. Afinal, foram mesmo coincidências. Resta aos que perdem (quase sempre por mérito próprio mas o “quase” é mais frequente do que devia e incomoda muito), enfiar a proverbial viola no saco e aprender a engolir os batráquios amargos da derrota. E então poderemos todos apoiar os nossos campeões sem pedras no sapato e ansiando merecer um dia os campeões que temos, em vez de termos os campeões que o país merece. &lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6678341-109819091459540003?l=atrasado-mental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/109819091459540003'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/109819091459540003'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atrasado-mental.blogspot.com/2004_10_01_archive.html#109819091459540003' title=''/><author><name>Salustio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06790931641188930562</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://2.bp.blogspot.com/_YQWGFPNE2b0/SYBiMPMz2dI/AAAAAAAAA6g/FePjZp0hUO8/S220/maca2.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6678341.post-109724067235794721</id><published>2004-10-08T14:04:00.000+01:00</published><updated>2004-10-08T14:04:32.356+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;O silêncio é de ouro&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Está na moda criticar o governo por tudo e por nada. Quanto a mim, não me parece correcto que isto aconteça. É verdade que criticar o governo por tudo e por nada é uma coisa que eu faço aqui muitas vezes e ainda por cima escudado atrás deste anonimato vil e criminoso (obrigado Pacheco Pereira por tudo o que nos ensinaste e que sejas muito feliz onde quer que estejas-provavelmente na vila da Marmeleira às portas de Rio Maior). Mas não é bem a mesma coisa. Em primeiro lugar, porque não o faço por gosto. Acreditem-me quando vos digo que, de cada vez que insinuo que Pedro Santana Lopes é um imbecil e que Paulo Portas é um ditadorzito in vitro, dói-me mais a mim do que a eles. Em segundo lugar, ninguém vai acreditar no que vou dizer agora mas também não tenho que provar nada a ninguém, tenho uma licença especial do primeiro-ministro para escrever aqui todas as barbaridades que me venham à cabeça. Deu-ma uma vez que nos encontrámos em Cacilhas às tantas da madrugada. Eu esperava um autocarro para ir para casa e ele saía de um dos bares de reputação duvidosa que ali havia mesmo em frente da Lisnave. Isto passou-se há uns anos. Acalmem-se os moralistas que ainda não tinha as altas responsabilidades de Estado que hoje tem. Era só presidente do Sporting ou coisa que o valha. Veio sentar-se na paragem ao meu lado, cumprimentou e disse que ali estava porque tinha bebido uns copos a mais e não estava em condições de conduzir. Por isso, esperava uma boleia de uma amiga a quem tinha telefonado e que por acaso tinha amante fixo na zona da Costa da Caparica (parece que um brasileiro com muito bom ar). Vi logo que era homem com as ideias no sítio, coisa em que nunca tinha reparado quando o via falar na televisão.&lt;/p&gt;     &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Falámos durante algum tempo porque o autocarro estava atrasado e trocámos impressões sobre vários assuntos então na ordem do dia. Quando o autocarro finalmente chegou, despedimo-nos com cordialidade e ainda teve tempo de me dizer qualquer coisa nestes termos: “Olha, se algum dia quiseres ir para a internet dizer cobras e lagartos sobre mim, estás à vontade, ouviste?” E eu cá estou. Palavra de honra que é tudo verdade. &lt;/p&gt;     &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Mas voltando ao assunto a que me referia antes desta singela diatribe pessoal, todos criticam o governo por actos censórios alegadamente movidos contra Marcelo Rebelo de Sousa e contra as longas-metragens que eram os seus comentários nos domingos à noite na TVI e que já se tinham tornado uma verdadeira instituição nacional.&lt;span style=""&gt;   &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;     &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;O ministro dos Assuntos Parlamentares, Rui Gomes da Silva, referiu-se aos comentários de Marcelo, acusando-os de conter mentiras e falsidades e mostrando-se indignado com a inacção da Alta Autoridade para a Comunicação Social. As mentiras a que se referia, tinham sobretudo a ver com uma referência feita por Marcelo a uma medida do actual governo que considerava ser “pior do que o pior do governo de António Guterres.” &lt;/p&gt;     &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Sinceramente, creio que foi escusado. Não sei se teve ou não razão porque acho a afirmação confusa e contraditória. Comparar o pior do governo de Santana Lopes com o pior do governo de Guterres é mais ou menos o mesmo que comparar os métodos usados pela Santa Inquisição e os métodos usados pela Gestapo. Se calhar, é possível fazer-se uma comparação deste tipo mas alguém se interessa? Não chega saber que as duas coisas são igualmente más? Mas adiante. Não é a mim que me cabe avaliar o discurso do professor Marcelo até porque acho que isto de avaliar os outros é muito feio. &lt;/p&gt;     &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;A verdade dos factos é que mesmo os muitos que agora andam pela praça a gritar “Aqui d’El-Rei que querem censurar os comentadores televisivos do nosso Portugal!” também estão contentinhos da Silva por o Jornal Nacional da TVI na sua edição de Domingo ter ficado 45 minutos mais curto. Ainda por cima porque agora é na TVI que dão os resumos da bola e uma pessoa sempre tem de fazer um frete mais pequeno. &lt;/p&gt;     &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;E afinal quem é que elegeu Marcelo Rebelo de Sousa o opinador-geral da república? Que fez esta alminha de tão importante para merecer tal distinção? Usou pêra durante mais de uma década? Liderou o PSD durante cerca de meia hora (mais coisa menos coisa, sei que durou menos do que um dos seus comentários)? Ou terá sido por ter dado umas braçadas no Tejo (que explica o desaparecimento da pêra-é sabido que a poluição é inimiga dos pêlos faciais)? Ou por causa do surf no Guincho? Ou por ter vencido as concorridas eleições para a Assembleia de Freguesia de Celorico de Basto? É que assim de repente não me ocorre mais nada. &lt;/p&gt;     &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;No fundo, tudo se resume a uma questão de gosto. E confesso que até acompanhava a rubrica literária do comentário com alguma simpatia. Cheguei a seguir algumas das propostas do professor, não todas porque infelizmente não durmo só duas horas por noite como ele e tenho de me limitar a dezassete livros por semana. Li, por exemplo, “O Cão de Castro Laboreiro-Uma História Secular” uma edição magnífica do Clube de Canicultura de Entre Douro e Minho e gostei quase tanto como da estrondosa e profusamente ilustrada “Monografia do Traque” editada pela Câmara Municipal de Estarreja. Recomendo vivamente qualquer uma destas obras a quem tiver a felicidade de as encontrar à venda. &lt;/p&gt;     &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Não está nada perdido, de qualquer forma. Posso procurar as minhas sugestões de leitura noutro sítio qualquer. Sei lá... no DNA ou na Dica do Lidl. Ficamos todos melhor sem aquelas conversas de algibeira que encerravam cada comentário entre Marcelo e o pivot de serviço do Jornal Nacional. “-Então professor, como vai o seu neto? –Está crescido. Ainda ontem teve a primeira crise de diarreia, sabe? A propósito, tome lá este leitão que lhe manda o senhor Amândio lá de Celorico e olhe que ainda está quentinho, que maravilha.” &lt;/p&gt;     &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;E perguntam-me assim: “mas olha lá, isso de querer calar as pessoas e não sei quê não é muito feio e até potencialmente lesivo para a saúde da ainda jovem democracia em que vivemos” (e é mesmo jovem, se fosse uma pessoa, há apenas cinco anos ainda tinha direito a Cartão Jovem)? Bom... lesivo para a saúde da democracia talvez não seja porque se continuamos a viver num país mais ou menos democrático (para todos os efeitos há eleições de vez em quando) depois das porcarias todas por que temos passado desde o Verão Quente ao Cavaquismo, Guterrismo, Barrosismo e ao actual Aneurismo, então a nossa humilde democracia é uma espécie de Super-Homem invulnerável dos sistemas políticos. Quanto ao resto, talvez seja feio. É bem capaz. Mas há que fazer sacrifícios. É bom que tenhamos princípios e que nos orientemos por eles mas é preciso aprender a ver as coisas em termos conjunturais e pô-los de parte quando valores mais altos se alevantam.&lt;/p&gt;     &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Talvez isto seja apenas o princípio de um movimento duradouro. Talvez a classe política portuguesa pretenda autosilenciar-se de forma gradual. Imaginem o paraíso que seria? Em termos práticos não haveria grandes diferenças. Continuaríamos a ser pobrezinhos e desonrados mas em paz e silêncio. Que nos lixassem a vida à vontade mas mantendo-nos numa prazenteira ignorância. Uma maravilha, não era? Até me salivo todo só de pensar. &lt;/p&gt;     &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Resta deixar aqui uma palavrinha de apreço dirigida a alguém que sei de fonte segura ser leitor atento. Como é pessoal, o resto de vocês pode ficar por aqui. É tudo o que tenho a dizer. Adeus. &lt;/p&gt;  Agora nós, Paes do Amaral. Ou Miguel. Permite-me que te chame Miguel. Obrigado! Não sei se foi o ministro que puxou os cordelinhos nem quero saber. O que sei é que foste tu o responsável por ficarmos livres da aulinha semanal do professor. Não me interessam os teus motivos. Não quero saber se foram mais ou menos nobres. Agradeço-te do fundo do coração. E até te perdoo por tudo. Pela Paula Neves, pelo Zé Maria, pelos Batanetes, pelo Carlos Ribeiro. Bom... por quase tudo. Pela Manuela Moura Guedes não te perdoo. Vais ter de te esforçar mais.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6678341-109724067235794721?l=atrasado-mental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/109724067235794721'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/109724067235794721'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atrasado-mental.blogspot.com/2004_10_01_archive.html#109724067235794721' title=''/><author><name>Salustio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06790931641188930562</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://2.bp.blogspot.com/_YQWGFPNE2b0/SYBiMPMz2dI/AAAAAAAAA6g/FePjZp0hUO8/S220/maca2.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6678341.post-109629334017294750</id><published>2004-09-27T14:53:00.000+01:00</published><updated>2004-09-27T15:01:26.440+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>  &lt;p style="text-align: justify; font-weight: bold;" class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=""&gt;Indignados e Ofendidos&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;O português gosta de ver. Somos um povo de mirones. E a coisa não é de agora. Quando as nações da Europa se degladiavam na segunda guerra mundial, nós assistíamos e íamos colaborando com os dois lados alternadamente, dependendo do lado que parecesse ter mais hipóteses de ganhar numa dada ocasião. Quando os nossos vizinhos da União Europeia evoluíam, nós olhávamos e tentávamos perceber como era possível investir o dinheiro dos fundos estruturais sem comprar um único jipe, sem mandar construir uma única vivenda com piscina.&lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;E esta característica que temos entranhada nos genes reflecte-se na vida de todos os dias. É isto que faz os portugueses pararem na auto-estrada para ver um acidente, comentar que “este foi dos grandes,” contar os mortos e feridos e, com sorte, ver uma poça de sangue ou um rim ainda quente espalmado no asfalto. E quem fala em acidentes de viação, também poderia falar em suicídios, discussões, zaragatas de rua, ataques epilépticos ou crises de diarreia na via pública. Tudo isto é espectáculo para o português médio e, pormenor sempre agradável, costumam ser de graça (pelo menos, até alguém se lembrar de começar a cobrar, o que poderia ajudar a resolver o problema da dívida pública). &lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Claro está que não pretendo dizer que todas as pessoas que se amontoam para assistir a este tipo de “performance” são iguais e que todas se comportam da mesma maneira, satisfazendo instintos voyeuristas animalescos a que não conseguem resistir. Pelo contrário, comportam-se de maneiras diferentes. Há o mirone assumido, ou seja, o mirone que vê alguém no parapeito de uma janela do sexto andar e pensa “Eu vou ficar a ver isto!” e depois há o mirone dissimulado que vê alguém atropelado pelo canto do olho e que se convence de que o facto de ter feito um desvio de duzentos metros para passar por ali foi acidental. &lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Isto vem a propósito da “notícia do momento.” Parece que morreu uma criança algures no Algarve e, ao que tudo indica, terá sido a mãe e um outro familiar os responsáveis pela morte. Já houve confissão mas o corpo não aparece. &lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;E pronto. &lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Limita-se a isto o conteúdo informativo da questão que possa interessar à opinião pública. Nem sequer é uma notícia particularmente importante. Infeliz com certeza. Importante não. &lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Que alguns órgãos de comunicação (a maior parte) transformem este assunto numa espécie de causa nacional não deverá surpreender ninguém até porque, olhando para acontecimentos passados, torna-se quase obrigatório este tipo de comportamento necrófago da parte de quem deveria informar o público e não limitar-se a satisfazer-lhe o gosto por sangue e tripas. &lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;O que choca, sem surpreender, é o comportamento do “público” (em gíria jornalística, toda a gente que não é jornalista ou alvo da atenção dos media) em tudo isto. Deveria fazer-se um estudo científico sério que tentasse perceber os motivos que levaram tanta gente a rodear o tribunal em que os alegados culpados do crime seriam ouvidos (comportamento que se repete sempre que há casos passíveis de suscitar um grau semelhante da chamada “indignação popular”). Que raio fazia aquela gente lá? Estavam a ver? Mas a ver o quê? Esperavam captar um vislumbre dos “pérfidos assassinos” e a seguir voltavam à sua vida sentindo-se realizados? Quereriam furar o cordão policial e fazer justiça pelas próprias mãos? Isto talvez não porque vai contra a natureza do mirone. O mirone vê mas não faz nada. &lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Num canal de televisão qualquer, uma mulher com cabelos brancos que deviam ser sinal de sensatez adquirida com os anos, afastava-se da porta do tribunal depois de ter falhado na sua tentativa de se aproximar dos suspeitos. Ao ver que era seguida por uma câmara, começou a falar. Não estava ninguém a seu lado, logo, depreende-se que ou era um desabafo ou estava mesmo a falar para uma multidão de espectadores potenciais. Eis, mais coisa, menos coisa, o que disse: “Não têm vergonha. Fazer uma coisa destas a uma criança. Uma criança inocente. Uma mãe fazer isto a uma filha.” E a seguir, ergueu os braços e começou a gritar de forma histérica: “Assassinos! Ai! Assassinos!” como se tivesse acabado de cair num transe místico, possuída pelo espírito padroeiro da justiça popular. O que aconteceu depois já não foi possível ver. Mas não me custa acreditar que a indignada senhora tenha recuperado a compostura mal a câmara foi apontada para outro lado e que tenha ido à sua vida, sem se esquecer de avisar as vizinhas e conhecidas para assistirem à sua prestação televisiva com um orgulho perfeitamente justificado. &lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Noutro “serviço noticioso,” um grupo de populares rondava um baldio onde a polícia procurava o corpo da criança brutalmente assassinada. Foram chamados a opinar dois desses populares. Um, um homem calvo e de óculos, disse, sem conseguir disfarçar um largo sorriso e em jeito de justificação pela sua presença ali, qualquer coisa como: “Então... eu sei que a miúda desapareceu... e vim aqui... prontos... porque gostava que ela aparecesse... morta ou viva.” Acrescento eu: “de preferência morta porque o pesar justiceiro tem sempre mais valor mediático do que o alívio indignado.” O outro popular era uma mulher de meia idade que disse saber o que custava, que também era mãe e que, em sua opinião, “bateram-lhe até a matar e depois levaram-na morta para um sítio desses e deitaram-na ao rio. É o que eu acho.” Muito obrigado por essa prova incontornável de que dentro de cada dona de casa há uma autora de policiais em potência. O pior é o maldito analfabetismo funcional. &lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Numa outra reportagem, dava-se conta dos esforços de grupos de populares que recusavam dar a cara por medo de represálias (não se sabe de quem, talvez da Irmandade Internacional dos Assassinos de Crianças que sempre vinga os seus membros) para encontrar o cadáver. Viam-se imagens de gente anónima, filmada de longe a bater com varapaus em moitas. Uma mulher de cara oculta e voz distorcida confia-nos que “enquanto for aqui e ali nas canas ainda vá, agora se atiraram com ela para dentro de água, já não podemos fazer nada.” Um esforço louvável. Mas um esforço louvável para fazer exactamente o quê? Qual o objectivo? Pensarão que, já que a polícia não consegue nada, mesmo tendo experiência profissional de lidar com este tipo de coisa e tendo acesso aos depoimentos dos suspeitos, o melhor é começar a procurar em todo o lado porque nunca se sabe se debaixo de uma moita de aspecto inocente não se ocultará uma vítima de homicídio? E o melhor é cada qual começar por procurar no seu próprio quintal. Ou debaixo da cama. Nunca se sabe. Por enquanto as buscas limitam-se à aldeia onde o crime terá ocorrido e arredores. Espera-se que comece em breve uma busca intensiva a nível nacional em que cada português será chamado a participar. Quem achar o corpo ganhará um fabuloso automóvel topo de gama.&lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Talvez o que choque não seja este tipo de comportamentos. Talvez seja absolutamente normal. Fruto de uma necessidade de tornar as desgraças pessoais mais suportáveis quando colocadas em relação com as desgraças do outro. Quando alguém passa o dia ocupado num emprego que odeia, regressando para uma casa que detesta, para uma mulher de quem nunca gostou, para filhos que não sabe a quem saíram tão estúpidos, para um clube que nunca ganha e para os pensamentos perturbadores que lhe surgem sempre que vê os colegas mudar de roupa no balneário da fábrica, talvez se compreenda que alguém nestas condições pense “Sim senhor. A minha vida é uma valente merda. Mas pelo menos não fui atropelado por um comboio e não tenho os miolos espalhados pelo chão como aquele tipo ali.”&lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;O que incomoda verdadeiramente é a aparência de indignação. Se todas as pessoas que assistem à busca de cadáveres, que observam acidentes, que esperam à porta dos tribunais estão verdadeiramente indignadas, chocadas ou o que quer que seja, comportem-se como tal. A indignação, o choque, a repulsa são sensações desagradáveis. Se estou indignado, chocado ou repelido por um determinado acontecimento, é-me difícil encará-lo e faço os possíveis por me afastar. Se estou abalado por uma criança inocente ter morrido de maneira bárbara, posso fazer muita coisa (as reacções nestas circunstâncias são muito diversas) mas não vou foçar no mato à procura do corpo. &lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Estas pessoas comportam-se desta forma não por sentimentos de indignação ou afins. Comportam-se assim porque sentem prazer. Os acidentes dão-lhes prazer. O sangue excita-os. O mórbido provoca-lhes um autêntico delírio sensual. São os prazeres que lhes sobram em vidinhas pobres, vazias e a que retiraram ou deixaram retirar todo o sentido. &lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Assuma-se então que as coisas assim são. É difícil mas faça-se um esforço. Vai-se para a porta do tribunal porque se está lá bem, discutindo o caso com pessoas que partilham interesses comuns e que gostam de agredir carros celulares. Olha-se para um automóvel despedaçado na berma da estrada dizendo “espero que não tenha sido grave” ao mesmo tempo que se procura avidamente uma mancha de sangue, uma orelha, um olho, uma perna ou uma mão que enriqueça a descrição &lt;span style="font-size:100%;"&gt;que se vai fazer em casa. Acompanha-se um potencial suicida gritando-lhe que não é solução enquanto se espera que salte depressa porque a hora de almoço já está quase a acabar. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style=""&gt;Uma criança foi morta pela mãe que em seguida escondeu o cadáver. Óptimo! Ainda bem! Porque não tinha nada que fazer hoje e assim sempre posso participar nas buscas. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6678341-109629334017294750?l=atrasado-mental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/109629334017294750'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/109629334017294750'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atrasado-mental.blogspot.com/2004_09_01_archive.html#109629334017294750' title=''/><author><name>Salustio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06790931641188930562</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://2.bp.blogspot.com/_YQWGFPNE2b0/SYBiMPMz2dI/AAAAAAAAA6g/FePjZp0hUO8/S220/maca2.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6678341.post-109476738927515599</id><published>2004-09-09T22:57:00.000+01:00</published><updated>2004-09-27T17:29:48.920+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>   &lt;p class="MsoBodyText"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Ai La Féria La Féria, sempre a mesma bactéria&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às vezes, perguntam-me “Olha lá, qual é o teu problema com o La Féria? O gajo fez-te algum mal ou isso é só mau feitio?” Confesso que raramente consigo responder de forma muito articulada e fico-me por um grunhido breve ou por uma frase simples como “Tu nem me fales nesse...” complementada com um bonito arranjo de palavrões à antiga portuguesa. Também posso começar a espumar da boca ou a abanar a cabeça para trás e para a frente de forma compulsiva enquanto vou cantarolando o tema principal da “Grande Noite” (Grande noite, grande noite, hoje vai ser a grande noite etc) que a RTP encomendou a Filipe La Féria numa noite em que a administração da televisão pública devia ter pegado no dinheiro que o dito programa custou e esbanjado tudo numa magnificente orgia para os funcionários mais dedicados com prostitutas de renome internacional e bebidas à discrição. Ficava o contribuinte mais bem servido. &lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Creio que é chegada a altura de fazer um esforço para explicar de forma o mais racional possível o que me move contra o trabalho do encenador mais popular do país e de forma tão militante que chega ao ponto de, por várias vezes, ter organizado sem sucesso operações de boicote às peças do senhor como, por exemplo, aquele plano memorável que envolvia raptar Anabela e substituí-la por um anão transsexual que acabaria por gorar-se quando o anão se recusou a beijar Carlos Quintas numa cena romântica de “Minha Linda Senhora.”&lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Um dos argumentos com que costumam tentar convencer-me a dar o dito por não dito é a velha história de reconhecer a Filipe La Féria o mérito de ter conseguido levar os portugueses ao teatro, coisa que não faziam normalmente, visto que se tornaram um povo alérgico a palcos com o passar dos anos. E daí? Isso dá qualidade ao seu trabalho? Não posso dizer que qualquer peça encenada por La Féria fica imediatamente contaminada com uma espécie de vírus revisteiro de mão na anca e trejeitos efeminados e imprópria para consumo humano só porque o senhor tem sempre lotação esgotada? &lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Se alguém decidisse organizar a matança diária em palco antecedida de tortura cruel de um funcionário da Direcção-Geral de Contribuições e Impostos e vendesse bilhetes para assistir ao evento, a sala estaria sempre cheia de gente entusiasmada a vibrar e aplaudir. Isso daria qualidade ao espectáculo? Talvez desse, agora que penso nisso. O exemplo não foi o melhor mas creio que ficou claro onde queria chegar. &lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Ao certo, de que é que não gosto em Filipe La Féria? Podia responder “de tudo” mas não o vou fazer porque faço questão de que as coisas fiquem bem claras. Vamos por partes. &lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Para começar pelo menos grave, não me agradou nada que o senhor tivesse comprado o cinema Olímpia. Está bem que era um espaço degradado e que a opção por só passar filmes pornográficos não fazia muito pela revitalização de uma das poucas salas de cinema que restavam na baixa lisboeta mas até nem me choca que penetrações vaginais, anais ou (inserir a vossa penetração preferida aqui) sejam elevadas à categoria de entretenimento de massas (massas que vão além dos intervenientes, claro está) mas penetrações mentais já me parecem dispensáveis. &lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Filipe La Féria foi o responsável pelo lançamento profissional de figuras como João Baião, Joaquim Monchique, Henrique Feist e Anabela. Fez de Alexandra uma actriz e ressuscitou destroços como Maria José Valério (sim, a velha doida que canta a marcha do Sporting e pinta o cabelo de verde). Já há mais alguém a pensar como eu?&lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Em relação à obra do artista (e aqui uso a palavra “artista” com o mesmo valor que na frase “Quem foi o filho de um grandessíssimo artista que me palmou a carteira?”), um mérito há que reconhecer-lhe. Em Portugal, nunca houve muitos dramaturgos. Os que tivemos foram quase sempre gente que fazia outra coisa qualquer e escrevia umas peças em part-time. Fale-se de Gil Vicente, Almeida Garrett ou Bernardo Santareno, e é mais ou menos unânime que estamos na presença de grandes autores. Se Filipe La Féria não existisse, não teríamos termo de comparação para ocupar o outro extremo da escala de qualidade, o extremo de “porcaria sem jeito nenhum.” Agradeçamos-lhe portanto o facto de podermos dizer “Epá, este Auto da Índia pode ser um marco na história do teatro europeu mas já me está a dar sono. Enfim, mas pelo menos não é o Passa Por Mim No Rossio.”&lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;E quanto a méritos ficamos por aqui. &lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Os primeiros trabalhos como "grande encenador" e não teatreiro underground de café-concerto (Whatever Happened to Madalena Iglésias, Passa por Mim No Rossio, Maldita Cocaína) eram aglomerados de rábulas em rima pobre interpretadas por actores em bicos de pés, com trejeitos amaricados, mãozinha na anca e vozes de peixeira do Bolhão entrecortadas com números musicais com muita cor, cenários magnificentes, coreografias mexidas e referências à grande Fernanda Baptista que assim passou de actriz de revista (Baptista-Revista, uma rima que fica sempre bem) para uma espécie de deusa da falta de gosto teatral.&lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;O público descobriu La Féria e o gosto pelo teatro. As salas começaram a esgotar. Os espectáculos mantinham-se em cena por longos períodos de tempo. Tudo graças a uma operação de marketing gigantesca que levava as pessoas a porem-se na fila para comprar bilhetes porque “parece que a peça é boa.” Ninguém sabia por que era a peça boa mas falava-se muito e havia muito cartaz e muito anúncio na televisão e se isso não é prova de qualidade eu não me chame Antero Sebastião de Oliveira França.&lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;O fenómeno estava lançado e acabaria por chegar à televisão. À já referida “Grande Noite,” juntaram-se “Jasmim ou o Sonho do Cinema” e “Camaleão Virtual Rock,” uma “ópera-rock” que estreou na RTP (vários anos após estar concluída) no horário das quatro e meia da manhã, tendo conhecido grande sucesso entre padeiros e guardas-nocturnos. Tanto em “Camaleão” como em “Jasmim” se notou a predilecção de La Féria por crianças (calma que a frase ainda não acabou!) em papéis de destaque nos seus projectos. Estava provado de uma vez por todas que havia esperança para rapazinhos imberbes com maneirismos afectados, filhos de gente rica e que lá no colégio todos tratam por “Mariazinha” e que não estavam limitados a trabalhar como sócios-maioritários da empresa de advogados do papá. Também podiam ser artistas!&lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Depois, veio a era das grandes produções, já no teatro Politeama que entretanto adquiriu, gabando-se de o ter feito sem ajuda do estado (obrigado, governantes de todos nós por esse lampejo de bom senso). “Rosa Tatuada,” adaptação de um grande encenador (Tennessee Williams) interpretada por actores à altura (João Baião e Rita Ribeiro). “A Casa do Lago,” adaptação teatral do filme com Katharine Hepburn e Henry Fonda em que o talento dos velhinhos mais adoráveis e sobrevalorizados de Portugal (Ruy de Carvalho e Eunice Muñoz) era ofuscado pela verdadeira estrela do espectáculo, uma piscina que ocupava grande parte do palco. Uma peça sobre a vida de Maria Callas a que ninguém deu grande atenção mas que serviu para dar um gostinho ao encenador pelos tributos a grandes divas da música. &lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;A atempada morte de Amália Rodrigues permitiu transformar a sua vida num musical, tendo o encenador revelado mais tarde que a própria Amália se tinha mostrado favorável ao projecto. Possivelmente, não foi informada de que o seu papel, sendo ela uma mulher que manteve um certo charme até à morte, seria interpretado por uma pata-choca oxigenada como a fadista Alexandra. &lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Até que chegámos à minha obra laferiana preferida. Aquela que mais vontade me dá de fazer uma espera ao Carlos Quintas à porta do teatro e colar-lhe um bilhete nas costas a dizer “Por favor, matem-me com requintes de malvadez. Dá-se recompensa generosa e bilhetes duplos para o Politeama.” Falo de “My Fair Lady” ou “Minha Linda Senhora,” o título português porque é um facto que 90% do público das peças de Filipe La Féria tem dificuldades que cheguem com a língua portuguesa para pensarem duas vezes antes de se aventurarem em idiomas estrangeiros. A crítica rendeu-se. Bravo. Sublime. Vejam como é possível encher uma sala de teatro em Portugal.&lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Disse-se que a produção portuguesa da peça era tão boa como a inglesa. No mínimo. Podia até ser melhor. O facto de ter sido o próprio encenador a dizer isto não escandalizou ninguém. A modéstia é uma coisa muito bonita mas quando se tem um talento sobre-humano, há que aceitá-lo com galhardia, pois então. &lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Para quem não conhece, permitam-me um momento enciclopédico breve. My Fair Lady começou por ser um musical da autoria de Frederic Loewe e Alan Jay Lerner estreado em 1956. A história baseava-se em “Pigmaleão” de George Bernard Shaw e narrava as peripécias do professor Henry Higgins e os seus esforços para transformar a pobre Eliza Doolittle numa dama da alta sociedade. Nos papéis principais, Rex Harrison e Julie Andrews. Na adaptação cinematográfica feita por George Cukor em 1964, Harrison manteve-se e Andrews foi substituída por Audrey Hepburn.&lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Mas foi preciso mudarmos de século e vir-se até Lisboa para que a velha história conhecesse a sua versão mais perfeita. Rex Harrison podia ser muito bom actor mas não conseguia manter um sorriso amarelo durante tanto tempo como Carlos Quintas (o seu recorde pessoal vai nos cinco dias, oito horas, quarenta e sete minutos e dois segundos). Julie Andrews pode ser boa actriz e ter boa voz. Audrey Hepburn ficava muito bem no écran, apesar de ter sido dobrada nos momentos musicais do filme. Mas alguma destas senhoras ganhou o festival RTP da canção? Anabela ganhou. E para provar que o talento não se mede aos palmos, encarregou-se com mestria de mostrar que pode ser tão má como actrizes de 1,85m (Brigitte Nielsen, põe-te a pau) e que a mesma vozinha aguda que forçou tantos portugueses a mudarem de canal de televisão ou estação de rádio sempre que começava a cantar (“Quando cai a noite na cidAAAAAAAAAAAAAAAAAAde” lembram-se?) e aquela cara de mosca morta faziam dela a Eliza perfeita. &lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;E em todos estes espectáculos, esteve presente a marca La Féria, o motivo principal que leva alguns a odiarem-no, que lhe suscita uma admiração masturbatória pelo seu próprio génio e que faz com que muitos vão ver os seus espectáculos “porque não dá nada de jeito na televisão e, assim como assim, sempre se vai ao teatro e temos alguma coisa para contar no escritório amanhã, não é?” &lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Ontem Amália, Callas, Tennesse Williams e Madalena Iglésias. Amanhã um musical erótico sobre a vida do engenheiro Sousa Veloso intitulado “Sem mais assunto, dispo-me com amizade.” Ontem o Politeama e o Olímpia. Amanhã o Coliseu dos Recreios e o Estádio da Luz. Chegará um dia em que existirá pelo menos uma peça de Filipe La Féria em cena em todas as sedes de concelho. &lt;/p&gt;   &lt;span style=""&gt;Por incrível que pareça, nem lhe atribuo quaisquer culpas. O pobre homem faz o que tem a fazer. Assim sempre vai enganando as vozes que lhe dizem “Filipe... veste-te de Carmen Miranda e sai para a rua a cantar ‘O que é que a baiana tem.” A culpa, se é que podemos falar de culpa, é desse hábito recente mas já tão português de pegar no pouco que temos e elevá-lo à categoria de sublime mesmo que nem “bom” consiga ser. Porque se não formos nós a gostar das nossas coisinhas, quem gostará? Podíamos ter um pouco de sentido crítico e saber ver o que é bom e o que é mau mas não. Sejamos patriotas e louvemos a qualidade de tudo o que por cá se faz de forma tão entusiástica que, muitas vezes, acabamos por ignorar completamente o pouco que temos de realmente bom. Sendo assim, para quê a contenção? Filipe La Féria é o maior encenador português! O maior dramaturgo europeu dos últimos 200 anos! O maior génio teatral de todos os tempos! Veja-se isto como uma adaptação positiva daquela expressão que fala de tempestade num copo de água. Não passa de um furacão num balde de merda. &lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6678341-109476738927515599?l=atrasado-mental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/109476738927515599'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/109476738927515599'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atrasado-mental.blogspot.com/2004_09_01_archive.html#109476738927515599' title=''/><author><name>Salustio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06790931641188930562</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://2.bp.blogspot.com/_YQWGFPNE2b0/SYBiMPMz2dI/AAAAAAAAA6g/FePjZp0hUO8/S220/maca2.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6678341.post-109347329601643221</id><published>2004-08-25T23:33:00.000+01:00</published><updated>2004-08-25T23:47:46.386+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>   &lt;p class="MsoBodyText"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;O barco do amor&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre o marasmo informativo já habitual no Verão português e que consegue mesmo suplantar o marasmo informativo do resto do ano, lá se vai encontrando notícia digna de reflexão mais atenta. Que o Zé Maria ande a passear os seus instintos suicidas e a sua genitália pelas ruas de Lisboa não me diz muito. Só me preocupa pensar nas pessoas que já participaram num reality-show ao longo dos últimos anos (e foram bastantes) e no que seria do país se todas começassem a revelar comportamentos psicóticos. Por outro lado, olhando para algumas das “celebridades” que apresentaram reality-shows e no contacto que os concorrentes tiveram com eles, vem-me à ideia a possibilidade de a maluqueira ser contagiosa. Recorde-se a noite negra de Teresa Guilherme que acabou com a popular produtora e apresentadora em pelota no alto da Torre Vasco da Gama a gritar “Quero pila” munida de um megafone? Pouca gente se lembrará porque o caso foi convenientemente abafado mas isso não torna a coisa menos grave. &lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Depois há mais um episódio do processo Casa Pia que cada vez se parece menos com um processo judicial e mais com uma telenovela australiana de 987 capítulos em que episódios rocambolescos periódicos vão tentando manter a atenção do público quando as audiências começam a baixar. Desta vez, a polémica prendeu-se com a divulgação de conversas gravadas em que gente importante diz coisas que não devia. Outra vez. Ao menos, podia haver originalidade mas não. Não sei se conseguiu surpreender alguém mas, pessoalmente, há muito que sabia que políticos, magistrados e afins vivem com o nariz enfiado no orifício anal dos profissionais da comunicação social e vice-versa. De igual forma, não me surpreendeu o teor das conversas e as acusações mais ou menos veladas que foram feitas. Chegámos a um ponto em que não me parecia mal que se prendesse toda a gente que aparece na televisão e depois se fizesse uma triagem dos que são pedófilos, dos que não são, e dos que, não sendo, já olharam para um rapazinho de doze anos com olhos de gula sodomita. &lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;E a selecção? A selecção de todos nós agora em versão olímpica, cheia de sangue jovem e sedento de medalhas, pela qual decorámos as janelas e varandas do país com bandeiras? Haverá motivo para críticas? Porque foram eliminados na primeira fase por equipas de muito baixa cotação no mundo do futebol internacional? Isso é um pormenor. Não podemos ser mesquinhos e há que ver as coisas de forma mais abrangente. O que os nossos bravos jogadores fizeram foi dar voz à maioria dos portugueses que sempre se mostrou contrária à participação portuguesa na invasão americana do Iraque, oferecendo à selecção iraquiana uma saborosa e rara vitória que fez as alegrias dos desafortunados iraquianos. Quanto à derrota com a Costa Rica, decerto saberão de alguma catástrofe que se abaterá sobre aquele país da América Central em breve e limitaram-se a antecipar uma manifestação de solidariedade. &lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;O assunto que me interessa discutir não é nenhuma das trivialidades acima expostas. Quero falar de forma séria e considerada da visita que o navio da organização holandesa “Women on Waves” fará ao nosso país com o objectivo de facultar a realização de abortos satisfazendo todas as exigências médico-sanitárias e sem ir contra a legislação nacional, visto que as intervenções serão feitas estando o navio em águas internacionais. &lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Eu acho mal. &lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;E explico porquê. &lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;O aborto é uma coisa muito feia. Implica destruir uma vida humana. Sim, porque o embrião já é um ser humano apesar de, à primeira vista, poder parecer apenas uma massa informe de células com tanto de humano como um rim ou um apêndice. Mas os rins e os apêndices não têm alma, pois não? Pode não ser uma justificação muito racional e poderá parecer absurdo que se tente impor uma convicção tão subjectiva e fundamentada em ideais religiosos a gente que as não partilha mas neste caso tem mesmo de ser. É que um rim, ao contrário do embrião, não contém em si a possibilidade de se vir a tornar um ser humano consciente. O embrião sim. E o espermatozóide também. E o óvulo. E até se pode pensar “ah, então e os litros de esperma que todos os dias e em todo o mundo são privados do seu potencial reprodutivo por indivíduos sem consciência? Não devíamos fazer também alguma coisa a este respeito para sermos coerentes?” Acho que sim. Sou adepto do registo compulsivo dos espermatozóides que cada cidadão (ou cidadã, vivemos tempos confusos) produza de forma a que as autoridades competentes possam pedir contas acerca do paradeiro de cada uma das células sexuais e do fim que tiveram no caso de não terem sido usadas para fertilizar um óvulo. Quem andar para aí a desperdiçar espermatozóides, a derramar futuros prémios Nobel da literatura ou cirurgiões de prestígio internacional em sabe-se lá que circunstâncias (e há gente muito perversa no mundo), merece ser punido de forma severa!&lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;E depois já se sabe como são as mulheres. Se não nos pomos a pau, desatam para aí a abortar por tudo e por nada e qualquer dia temos o país às moscas ou então entregue a ucranianos, brasileiros e marroquinos. Pode parecer machismo mas não é, até porque uma boa parte dos activistas pelo direito à vida (talvez a maior parte) é mulher e elas lá conhecerão melhor que qualquer homem a natureza feminina tão propensa a sacrificar vidas inocentes em troca de uma vida sexual libertina e inconsciente. &lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Poder-se-á argumentar que os abortistas (nome que vou dar aos partidários da liberalização do aborto para não lhes chamar pura e simplesmente “porcos” que é o que eles são) terão alguma razão. Que liberalizar a interrupção voluntária da gravidez não seria um incentivo à prática de abortos que, dizem eles, é sempre traumática, mas sim deixar à consciência de cada a mulher a decisão sobre o que fazer do seu próprio corpo. Ora isto são disparates inconsequentes influenciados por uma mentalidade radical de esquerda tão em voga no mundo ocidental. Acuse-se a Polónia, a Irlanda ou Portugal de submeterem o livre arbítrio dos seus cidadãos aos princípios religiosos de uma minoria, de permitirem que religião e estado se associem de forma perigosamente promíscuas, coloquem-se estes países no mesmo patamar de outros em que a religião influencia a governação como a Arábia Saudita ou o Irão. Mas nós, os justos, os bons, sabemos que temos razão. E nada do que disserem, nenhuma das manifestações que marcarem, nenhuma das mulheres que forem levadas a tribunal por terem feito um aborto, nenhuma das mulheres que morrem ou ficam com problemas de saúde para o resto da vida por terem sido obrigadas a fazer um aborto clandestino nos fará mudar de ideias. &lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;O navio que agora nos visita é mais uma tentativa de transformar Portugal numa república abortista. Vem da Holanda e isso diz tudo. A Holanda, também conhecida e de forma justificada como “Países Baixos,” é um país construído sobre o deboche. Pouca gente saberá mas a cor da bandeira da família real holandesa, o laranja que se tornou cor identificativa dos holandeses no desporto e fora dele, foi escolhido há séculos por ser a cor referida na Bíblia como sendo a cor da depravação. Em Amesterdão, é difícil perceber se será mais fácil enfiar um charro na boca ou pagar a uma jovem húngara recém-saída da adolescência para enfiar a boca noutra coisa qualquer. Homens podem casar-se com outros homens e mulheres com outras mulheres na Holanda. Diz-se que em breve será possível a realização de casamentos entre noivos de espécies diferentes.&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;Tem fama de ser um país desenvolvido mas, se pensarmos bem, poderemos chamar “desenvolvido” a um país em que uma grande parte da população usa tamancos artesanais de madeira e que está dependente de diques para não ficar submerso pelas águas do mar? Duvido.&lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Felizmente, temos em Portugal um governo que sabe o que quer e conhece o caminho para lá chegar. O ministério da Defesa Nacional anunciou estar atento a possíveis infracções à lei portuguesa por parte do navio e da sua tripulação e garante que intervirá de forma apropriada se tais infracções se verificarem. Bem haja. Vão fazer abortos para a vossa terra, holandeses do camandro! Que em Portugal mandam os portugueses. Ouviram bem? Se não ouviram, mandem cá a selecção outra vez e nós mostramos ao mundo com quantos parafusos se desfaz uma laranja mecânica. &lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;E há que destacar a visão de Pedro Santana Lopes, um homem que alguns acusam de forma injustificada de ter andado durante anos a prometer cargos no governo em troca de noites de sexo descomprometido se algum dia chegasse a primeiro-ministro, em relação a esta questão do aborto. &lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Quando se anunciou que Paulo Portas seria o ministro de Estado da Defesa Nacional e dos Assuntos do Mar, muitos ficaram surpresos, incluindo o próprio ministro. Percebe-se agora o motivo. Santana Lopes, como homem informado que é, sabia que uma coisa destas podia acontecer e estava preparado, sabendo que o perigo viria do mar. Olhou para a lista dos membros do governo, dos membros do governo a sério sem contar com os que só foram nomeados para fazer jeitinhos, e procurou o nome mais indicado para lidar com as questões do aborto. Bagão Félix, antigo ministro da Segurança Social estava queimado. Morais Sarmento não consegue pronunciar correctamente a palavra “aborto.” José Luís Arnaut é ele próprio fruto de um aborto falhado e entregar-lhe uma questão tão problemática despertaria traumas antigos. &lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Quem estaria acima de qualquer suspeita? Quem conheceria a fundo os problemas da família e se interessaria de forma activa pela sua resolução? Quem teria uma irmã que assume publicamente já ter feito um aborto? Quem representaria de forma segura os valores tradicionais e humanistas que traduzem a essência do ser português? Quem passou a juventude num bairro degradado nos arredores de Almada a dar aconselhamento psicológico a jovens que abortaram? Quem realiza com frequência na sua residência oficial sessões de esclarecimento sobre os malefícios do aborto para jovens do sexo masculino em que todos os participantes são chamados a participar de forma activa e sem roupa? (de forma passiva também mas menos) Paulo Sacadura Cabral Portas, pois então. E ele está vigilante. Ouviram, velhacos neerlandeses? Ponham-se a pau. &lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;É que isto não é o da Joana. &lt;/p&gt;   &lt;span style=""&gt;E nem são tão espertos como pensam. Se, por acaso, houvesse por cá alguém que quisesse fazer abortos em clínicas qualificadas, não precisaria de se enfiar num barco em alto mar. Badajoz é já aqui ao lado, seus palermas!&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6678341-109347329601643221?l=atrasado-mental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/109347329601643221'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/109347329601643221'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atrasado-mental.blogspot.com/2004_08_01_archive.html#109347329601643221' title=''/><author><name>Salustio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06790931641188930562</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://2.bp.blogspot.com/_YQWGFPNE2b0/SYBiMPMz2dI/AAAAAAAAA6g/FePjZp0hUO8/S220/maca2.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6678341.post-109137413792919873</id><published>2004-08-01T16:17:00.000+01:00</published><updated>2004-08-01T16:31:29.080+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>       &lt;p class="MsoBodyText"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Farenaite 7/17&lt;/span&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="MsoBodyText"&gt;Acerca do realizador americano Michael Moore, há várias opiniões muitas vezes contraditórias. Há os que acham que é um realizador de talento justamente reconhecido pela Academia de Hollywood (que, de vez em quando, lá vai acertando) e os que vêem nele um activista político “liberal” (o que se chama nos Estados Unidos às pessoas a que cá chamamos “de esquerda”) que sacrifica a arte aos seus ideais e não olha a meios para transmitir a sua visão pessoal dos acontecimentos que retrata sem preocupações com objectividade e isenção. Há também os que misturam elementos das duas correntes de opinião. &lt;/p&gt;    &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Pessoalmente, não me preocupa saber quem tem razão. Vi o último filme de Michael Moore recentemente e não me surpreendeu a forma feroz como George W. Bush é atacado e que não pode justificar os arremedos inquisitoriais dos que, por lá, na terra da liberdade e da democracia por excelência, quiseram censurar o filme. São assuntos deles e eu não tenho nada que me meter. É verdade que me faz confusão saber que Bush não venceu (como foi anunciado) as eleições no estado que desempataria os dois candidatos, mesmo sendo o estado em questão governado pelo irmão do actual presidente e em que vários cidadãos não-republicanos viram os seus nomes retirados dos cadernos eleitorais sem justificação plausível, e sendo os votos contados por uma apoiante de um dos candidatos (e não era de Al Gore.) Também me custa perceber, mesmo aceitando a vitória fictícia de Bush na Florida, como é que num país que apregoa as virtudes da democracia pelo mundo fora, indo ao extremo de a tentar impor pela força das armas, o presidente pode não ser o candidato com o maior número de votos, como sucedeu, e tudo porque a eleição do presidente dos Estados Unidos é feita não de forma directa mas por um colégio de representantes dos vários estados para salvaguardar os direitos dos territórios menos povoados, uma preocupação que talvez fizesse sentido no séc. XVIII mas que agora parece algo absurda. Mas é lá com eles. Se gostam do sistema, óptimo. Se não gostam, resolvam o problema sozinhos que ninguém tem nada com isso. &lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;O motivo que me leva a falar em Michael Moore não é a vontade de me dedicar à crítica cinematográfica. Há gente com competência real para o fazer. Nenhum dos críticos profissionais que temos faz parte desse grupo mas isso é outra cantiga. &lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Não pude deixar de me aperceber de algumas semelhanças entre a situação que se vive nos Estados Unidos e a que a brava gente lusitana enfrenta. Eles são governados por alguém que não foi eleito. Nós também. Quem os governa parece não ter competência para o cargo. Quem nos governa a nós também não. O elenco governativo americano está repleto de personalidades com ligações difíceis de camuflar a interesses económicos diversos. O português também. E isto sem querer duvidar da honestidade dos nossos ministros que são com certeza gente de bem e que só quer trabalhar para fazer de Portugal um país melhor e que não hesita em assumir posições antagónicas aos interesses dos amigos, familiares e colegas de trabalho ao lado dos quais estavam até ao dia da sua tomada de posse, funcionando a cerimónia de tomada de posse como uma espécie de ritual místico de purificação em que o gestor mais ambicioso se transfigura no mais isento dos servidores da causa pública. &lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;O presidente americano tem amizades embaraçosas (elementos da família Bin Laden, membros da família real saudita, empresários corruptos). O primeiro-ministro português tem Cinha Jardim e Margarida Prieto. &lt;span style="" lang="EN-GB"&gt;O americano tem Dick Cheney, Donald Rumsfeld, Paul Berkowitz, Colin Powell, Condoleeza Rice. &lt;/span&gt;O português tem Morais Sarmento, António Mexia, Álvaro Barreto, Fernando Negrão e Teresa Caeiro. O antigo governador do Texas tem ar de bruto, boémio, irresponsável. Como é óbvio, as diferenças entre os dois não se podem fazer sentir em todos os aspectos.&lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;E depois há o patriotismo. Sempre que há no mundo governantes ineptos que não têm qualquer pudor em tornar os pobres mais pobres e os ricos mais ricos, que submetem os interesses do povo a suspeitos interesses de Estado, surge sempre uma necessidade imperiosa de apelar ao patriotismo porque “as pessoas têm de aprender a gostar do seu país” e a “verem o seu país de uma forma positiva” e, enquanto penduram bandeiras e cantam o hino, não vêem o caos da economia, o desemprego a aumentar e os erros de governação que se sucedem como traques num jantar de convívio entre Fernando Mendes e Fernando Rocha. &lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Nada me move contra o patriotismo. Se se entender o patriotismo como uma espécie de bairrismo saudável consciente daquilo em que somos bons e daquilo que pode ser melhorado e ansioso por aprender com os de fora coisas que nos possam ajudar a resolver o que está mal. O outro patriotismo que se aproxima mais do bairrismo saloio à moda de Manuel Serrão é desprezível. Também não gosto desta coisa das bandeiras penduradas na janela. Chamem-me esquisito mas não gosto. Está bem que até é uma coisa inofensiva e dá colorido mas sempre que vejo uma bandeira pendurada (e elas ainda aí andam, sobrevivendo à tragédia grega do Euro), faz-me sempre pensar que estou na Alemanha dos anos 30. A diferença é que as suásticas do Terceiro Reich que havia de durar mil anos e durou um bocadinho menos (e ainda bem) eram mais ou menos todas iguais e não havia variações de estilo como sucede com a bandeira da República de 1910 que os portugueses prendem com molas ao arame da roupa sem se importar se as quinas estão de pernas para o ar ou se os castelos são torres e garatujos indecifráveis. &lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Quando o patriotismo resulta de apelos de quem está no poder, é sempre mau sinal e é o pior tipo de patriotismo possível. Basta olhar para a história recente da humanidade para o perceber. Foi mau sinal na Alemanha de Hitler, na Itália de Mussolini, no Japão expansionista, no Iraque de Saddam, no Portugal do Estado Novo, na Sérvia de Milosevic. Continua a ser mau sinal no Israel dos colonatos (que consegue ofuscar um país democrático, liberal e laico de gente esclarecida erroneamente identificada com um punhado de fanáticos barbudos enfiados em condomínios de luxo no deserto protegidos por metralhadoras e mísseis balísticos), nos Estados Unidos de Bush e no Portugal do triunvirato Durão Barroso-Santana Lopes-José Eduardo Moniz. &lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;No filme de Michael Moore, há um momento em que se refere que são sempre os mais pobres os primeiros a embarcar em euforias patrióticas irracionais. Outra coincidência. Por cá, passa-se exactamente o mesmo. Com a descoberta recente de um orgulho pátrio fajuto sustentado pelos media e por políticos com segundas intenções, são também os mais desgraçados de um país em que os desgraçados são a maioria os mais orgulhosos de ser portugueses, os que mais saltam, os que mais gritam “Portugal Alê Alê,” os que primeiro alinham no conveniente discurso oficial do “chega de estarmos sempre a queixar-nos do que está mal, vamos antes centrar a nossa atenção no que está bem e esquecer o resto.” &lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Se acho que a culpa de tudo isto é dos partidos do governo (do que foi legitimamente eleito e deste que foi instituído em 17 de Julho por um acto irresponsável de quem por tanto querer parecer imparcial aos interesses do seu partido, acabou por beneficiar de forma injustificada o partido dos outros)? Não acho. Os problemas já vêm de longe e o discurso pseudo-patético-patriótico também. &lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Se acho que as coisas estariam melhor se tivessem sido convocadas eleições? Melhor talvez não estivessem, tendo em conta que a alternativa mais provável ao actual primeiro-ministro é também ele fruto da escola dos telepolíticos que usam a cadeira de comentador como uma espécie de púlpito de igreja para hipnotizar gente que percebe tanto do pouco que dizem em muitas palavras como perceberia se falassem em latim. Mas confesso que a convocação de eleições me deixaria mais tranquilo. Assusta-me ver tanta gente confessar que realmente o nome convidado pelo presidente da república (a letra minúscula é intencional) para formar governo não será o que maiores competências reunia mas, como vivemos numa democracia, há que respeitar as regras e esta era a solução legítima, quando a outra solução possível era tão ou mais legítima do que esta com a vantagem de estar referida explicitamente na Constituição, enquanto que a solução pela qual se optou apenas ganha legitimidade por omissão na prescrição do que deve ser feito quando um primeiro-ministro se demite. Ou seja, diz-se num artigo que o governo cai com a demissão do primeiro-ministro e noutro que o presidente convida o partido mais votado nas eleições para formar governo sem referir explicitamente o que acontece quando um primeiro-ministro se demite a meio do mandato. E à custa disto, há quem não veja qualquer tipo de problema em ter o país governado por um incapaz certificado desde que se mantenha uma aura de legitimidade institucional fundamentada na falta de clareza ou no esquecimento de quem redigiu a Constituição. &lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;Se acho que as coisas podem piorar ainda mais? Perfeitamente. Com os dois anos que temos pela frente e com o mandato de quatro anos que se seguirá a umas eleições ganhas à custa de desastrosas medidas eleitoralistas e de muito palavreado acerca dos pobres, dos desempregados e dos coitadinhos em geral, temos todas as condições para nos afundarmos ainda mais. &lt;/p&gt;   &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoNormal"&gt;E a partir daí, será um ciclo vicioso. Quando a oposição subir ao poder, tendo constatado que esta maneira de fazer as coisas funciona, por quê mudar? O político moderno já percebeu que, feitas as contas, o que interessa é a história e essa tem uma tendência para ser benévola. Com o passar dos anos, os líderes mais desagradáveis acabam por se transformar sempre em heróis populares. Júlio César, Alexandre, o grande, o rei D. João II que era um tirano da pior espécie e agora é um dos heróis da expansão portuguesa, o Marquês de Pombal. É deixar passar mais uns anos e começarão a ser discutidos os muitos méritos governativos de Salazar. Hitler até nem era um gajo assim tão mau e alguém que fazia aqueles filmes engraçados com o chapéu de coco e a bengala não pode ter sido responsável por um holocausto (no futuro, os registos históricos vão começar a ficar muito confusos). &lt;/p&gt;   &lt;span style=""&gt;E de nós que temos de lhes aturar as manias e que sofremos com os seus erros ninguém há-de falar. Fiquem-se com este pensamento reconfortante e tenham um bom resto de Verão. &lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6678341-109137413792919873?l=atrasado-mental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/109137413792919873'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/109137413792919873'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atrasado-mental.blogspot.com/2004_08_01_archive.html#109137413792919873' title=''/><author><name>Salustio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06790931641188930562</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://2.bp.blogspot.com/_YQWGFPNE2b0/SYBiMPMz2dI/AAAAAAAAA6g/FePjZp0hUO8/S220/maca2.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6678341.post-108968218526970457</id><published>2004-07-13T02:13:00.000+01:00</published><updated>2004-07-13T03:06:47.513+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;A crise&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por mais que façamos de conta que não é nada connosco, ela está aí e não há volta a dar-lhe. Meus amigos, estamos envolvidos numa crise política daquelas que não havia por cá desde os saudosos e garridos tempos do pós-PREC, altura em que a política era mais genuína, os ideais eram mais puros, as gargantas gritavam mais alto e os políticos não tinham pudor nenhum em ir para o parlamento em mangas de camisa e tratar toda a gente por “camarada” a torto e a direito mesmo que o interlocutor fosse o professor José Hermano Saraiva (este trecho é inteiramente fictício pois, como é sabido, os ideais não eram assim tão puros e José Hermano Saraiva, antigo ministro dos governos do Estado Novo, enfiou-se debaixo da cama na manhã do 25 de Abril e só de lá saiu em Agosto de 1991 para apresentar um programa sobre a introdução da roupa interior na Península Ibérica durante o reinado de el-rei D. Fernando, o formoso ou “o cuecas” para os mais íntimos).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Analisemos as coisas de forma séria, mas sem exageros porque para seriedades temos aí o Nuno Rogeiro, o Marcelo Rebelo de Sousa e o José Carlos Malato. Como é que a crise começou? Ora bem, começou com o convite feito a Durão Barroso para assumir a presidência da Comissão Europeia, cargo para o qual começou por mostrar-se absolutamente indisponível e, logo em seguida, orgulhoso por ter sido escolhido e motivado para dar o melhor por Portugal e pelos portugueses também na Europa. Como chegámos até aqui não vale a pena estar agora a discutir. É indiferente saber se Durão foi convidado pelo reconhecimento dos seus méritos de estadista dotado, pela capacidade para introduzir canetas de feltro pelas narinas acima até só ficar o bico de fora (o que provoca sempre efeitos engraçados quando se assoa) ou como resposta às preces de milhões de portugueses que passaram os últimos dois anos a pedir a Deus para os livrar dele, esquecendo-se porém de especificar os termos em que isso deveria acontecer e prevendo quais as consequências futuras da concessão de tal graça. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora já está. Paciência. E como esta grande traineira em vésperas de ser abatida pelas limitações da Europa à frota pesqueira que é Portugal não pode passar sem um grande timoneiro que nos conduza ao porto de abrigo que é a reunião com os países do mítico pelotão da frente, restava ao presidente de todos nós tratar do assunto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E poderia fazê-lo de duas formas. Ou convocava eleições antecipadas ou pedia ao partido mais votado nas últimas eleições para designar um novo primeiro-ministro. Havia uma terceira hipótese mas desde a Idade Média que a prática de fechar um grupo selecto de candidatos a governantes numa cave escura armados com objectos aguçados e nomear o único sobrevivente ao fim de três dias de combates violentos caiu em desuso e ainda bem porque ter um governo chefiado pelo Marco do Big Brother seria tão desastroso como ter um governo chefiado... sei lá... por Pedro Santana Lopes. Ai que parcial que eu fui agora. Que se lixe. Adiante. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jorge Sampaio é um homem sensível. Se calhar, muitos dirão que é sensível demais. Outros não terão dúvidas em afirmar que é um choninhas que chora por tudo e por nada. Mas a sensibilidade (extrema ou não) não é o seu único dom. É poliglota. Fala inglês e francês e num nível superior ao de “empregado de marisqueira de Portimão” que é o nível a que chegam habitualmente os políticos portugueses mais dotados para isto das línguas. Foi um interveniente activo na luta estudantil antes de 1974. É um dos juristas mais conceituados do país. Com tudo isto, não seria demais pedir-se-lhe também que tivesse perspicácia política? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta tal perspicácia política de que falo é um dom raro. Não se trata da capacidade para interpretar os dados e chegar a conclusões. Vai mais longe. Trata-se de algo que permite olhar para uma determinada conjuntura, analisar os vários elementos presentes e, eis o busílis, ver para além deles, detectando o seu significado mais profundo e oculto. Muitos políticos passam a carreira toda sem esta capacidade e isso não faz deles necessariamente maus políticos. Jorge Sampaio, pelo contrário, tem-na e sabe como aplicá-la.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Na presente situação, tínhamos os seguintes elementos: o primeiro-ministro demitiu-se para assumir um cargo na União Europeia que lhe trará benefícios políticos e económicos; no último acto eleitoral, os partidos que sustentam o governo obtiveram votações que demonstram claramente que a maioria dos portugueses não está contente com o seu desempenho; o nome escolhido pelo partido maioritário no parlamento para a eventual constituição de novo governo é o de alguém que as sondagens revelam não ser do agrado da maioria dos portugueses (da minoria também não); outras sondagens revelam que os portugueses são maioritariamente a favor da convocação de eleições antecipadas; várias personalidades políticas conceituadas aconselham a convocação de eleições, incluindo algumas figuras ilustres do partido que venceu as últimas eleições legislativas; há manifestações populares de desagrado perante a possibilidade de ser formado novo governo sem recurso a uma consulta popular. E o Presidente da República, apela à calma e à serenidade (algo que sempre gostou muito de fazer), anuncia que vai pensar pois não é decisão que se tome de ânimo leve, desmente o primeiro-ministro demissionário quando este diz que lhe foi garantido que não iria haver eleições e mostra que é ele que decide e que a decisão ainda não foi tomada e... convida Santana Lopes para formar governo. Tudo a bem da estabilidade política. Desta estabilidade política em que hoje vivemos. Se isto não é ter visão, não sei o que é.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quero deixar aqui uma coisa bem clara. Não tenho nada contra Santana Lopes para além do facto de me parecer um megalómano desejoso de acumular cargos uns atrás dos outros, de não mostrar competência para dirigir seja o que for em condições (uma câmara municipal, um clube de futebol, uma secretaria de Estado ou um governo), de desempenhar as funções para as quais é eleito de forma leviana e a pensar no que virá a seguir (Cultura, Sporting, Figueira, Lisboa, Portugal, Mundo e por aí fora), de andar sempre rodeado de dondocas, de ser tantas vezes referido nas páginas da actualidade política dos jornais como nas revistas cor-de-rosa ou de ser uma versão moderada, menos preocupante em aparência e heterossexual de Paulo Portas. Até estou disposto a dar-lhe uma oportunidade para ver do que é capaz à frente do governo de um país. Mas acho que não devia ser à frente do governo deste país. Há centenas de países no mundo. Por que é que temos de ser nós a ser governados por Santana Lopes? Não somos já suficientemente desgraçados com os incêndios, a pobreza, o atraso estrutural, as doenças, a iliteracia, as listas de espera, os Malucos do Riso e os acidentes de viação? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas parece que o homem até tem ideias. Durão Barroso nunca teve uma ideia real na vida. António Guterres teve uma mas era tão má que acabou por desistir dela. Tanto um como o outro governaram com base nas intenções de voto e nos discursos sobre este ou aquele assunto fulcral para a sociedade inserido no momento exacto para tentar inverter o rumo das sondagens e sem qualquer fim prático. Ao contrário, Santana Lopes parece ser profícuo em ideias. E isso mete-me medo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diz que quer descentralizar. Que com as novas tecnologias já não precisa de estar tudo concentrado no mesmo sítio. Que o ministério da Agricultura pode perfeitamente ser mudado para Santarém, que uma secretaria de Estado do Turismo pode ir perfeitamente para Faro. Qualquer idiota percebe que uma medida deste género seria desastrosa para a economia já bastante debilitada do quintalinho pacato em que vivemos. O pior é que em Portugal, o estatuto de “qualquer idiota” só é alcançado após longa e árdua formação académica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diz também que quer mais ministérios e menos secretarias de Estado. Pessoalmente, até concordo com esta. Por que não? Vejamos... temos a secretaria de Estado do Desporto. O desporto é uma área importante para o país. Do que nós precisamos é de um ministério do Desporto. Mas isso não chega. “Desporto” é muito vago. Constituam-se ministérios separados para o futebol, o andebol, o ciclismo, o basquetebol, o hóquei em patins e o atletismo. E como somos um país democrático em que os direitos das minorias são quase sempre reconhecidos e respeitados, não podemos limitar a medida aos desportos mais populares. É necessário que existam também um ministério do Cricket, um ministério do Corfebol, um ministério da Natação Sincronizada, um ministério da Columbofilia e um ministério dos 400 Metros Barreiras Para Atletas Que Não Conseguem Pronunciar Correctamente A Letra L. Pensando melhor, talvez não. Talvez a columbofilia passe bem só com uma secretaria de Estado. Afinal de contas, que raio de desporto é criar pombos e abrir-lhes a gaiola de vez em quando?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E por que não um ministério da Lusofonia? Por que não um ministério da Frontalidade? Um ministério da Intensificação? Um ministério da Audácia? Um ministério dos Pequenos-Almoços para promover aquela que, segundo os nutricionistas, é a refeição mais importante do dia e é sempre tão descurada entre nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas talvez não haja grandes motivos de preocupação. Olhando para o passado, o mais provável é que as ideias brilhantes de Santana Lopes para o futuro de Portugal tenham o mesmo fim de outras como o casino de Lisboa, a renovação do Parque Mayer, a animação nocturna da Avenida da Liberdade, a dinamização do parque de Monsanto ou as novas instalações da Feira Popular, ou seja, o esquecimento depois de um período de discussão pública acesa em que Santana tenta mostrar por que é que sabe o que é melhor para as pessoas e os seus detractores tentam mostrar-lhe que é um imbecil que não sabe o que diz.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na pior das hipóteses, as suas ideias acabam em buracos gigantescos de lama ou pó (consoante a estação do ano) porque alguém as pára a tempo, antes que seja tarde demais e os efeitos catastróficos não possam ser invertidos.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Talvez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas há uma coisa que me incomoda. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Incomoda-me pensar que nunca Santana Lopes teve tanto poder para levar as suas ideias até ao fim.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6678341-108968218526970457?l=atrasado-mental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/108968218526970457'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/108968218526970457'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atrasado-mental.blogspot.com/2004_07_01_archive.html#108968218526970457' title=''/><author><name>Salustio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06790931641188930562</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://2.bp.blogspot.com/_YQWGFPNE2b0/SYBiMPMz2dI/AAAAAAAAA6g/FePjZp0hUO8/S220/maca2.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6678341.post-108847033128817109</id><published>2004-06-29T01:46:00.000+01:00</published><updated>2004-06-29T01:52:11.286+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;Adeus Zé Manel&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Zé Manel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me conheces mas sinto que chegou o momento de te dirigir algumas palavras. Não posso adiá-lo mais. Antes de mais, permite-me que te trate por tu. Podes achar um abuso de confiança mas garanto-te que o faço com a mais nobre das intenções. Trato-te por tu, apesar de não te conhecer pessoalmente, como se trata por tu o mais querido dos amigos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu nome é irrelevante. Basta dizer-te que sou um dos felizes cidadãos deste país que ao longo dos últimos anos beneficiou do teu savoir-faire político, da tua perspicácia analítica, da tua retórica infalível. E talvez seja pertinente acrescentar que não votei em ti. É verdade, Zé Manel, não votei em ti e, na altura em que o poderia ter feito, acho que preferia contrair uma doença letal que só pudesse ser curada mediante aplicação de supositórios para cavalo cinco vezes ao dia a votar em ti e nos teus amigos. E olha que não considero esta possibilidade nada agradável. Bem sei que um dos teus ministros de Estado te confidenciou uma vez que se divertia muito com uma coisa parecida mas isso é lá com ele. Cada qual sabe de si e eu não estou aqui para julgar ninguém. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas se o arrependimento matasse, eu já estaria mais morto do que o teu choque fiscal. Se soubesse o que sei hoje não teria hesitado em confiar-te o meu voto, seguro de que tu serias o homem indicado para conduzir a nação a bom porto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O engenheiro deixou-nos a todos com uma mão à frente e outra atrás mas tu, Zé Manel, tu amputaste-nos as mãos. E ao fazê-lo, fizeste-nos perceber que elas tapavam qualquer coisa que poderia facilmente ser posto a render para ganharmos uns trocos e enganarmos a crise. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outros riram-se quando viram alguns dos ministros que escolheste. Lembras-te? Confesso que também eu me ri. Não mo podes censurar. Aquele que não diz os erres, a outra que parece uma lagartixa mumificada, o janota que era jornalista e agora já não é, a Celeste Cardona...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E admito que fiz mal em rir-me. Com o tempo fui percebendo que não se deve julgar um ministro pelos seus defeitos na fala, pelo seu aspecto físico, pelo seu grau de alfabetização ou por gostar de se trancar horas a fio no gabinete em reunião de emergência com rapazinhos de catorze anos. É a lidar com o povo e a resolver os problemas que surgem no dia-a-dia governativo que se percebe a fibra de um governante. E a fibra dos governantes que escolheste, Zé Manel, posso dizer-te que é de vidro. Daquela bem rija e que quando lhe tocamos com a pele nua ficamos com comichão durante semanas e não há pomada ou unguento que resolva. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tu lembras-te daquela cimeira nos Açores? É normal que não te lembres porque já foi há uns tempos. Eu lembro-me bem. Foi a partir daí que comecei a olhar para ti com outros olhos, sabes? Lembro-me do esforço que fizeste para quase não aparecer nas fotografias e nas imagens televisivas para mostrar àqueles que te acusaram de estares sedento de protagonismo internacional que estavam redondamente enganados. E ainda gostava de saber como conseguiste que tudo o que disseste na cimeira fosse completamente ignorado pela imprensa internacional. Se algum dia te encontrar em pessoa, gostava que mo explicasses.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a mestria com que lidaste com o Euro? Se isso não faz de ti um génio não sei o que fará. Não tiveste medo que te acusassem de aproveitar o Euro em favor dos partidos que te apoiam nas eleições europeias, mostrando que és um homem com eles no sítio. E se bem te conheço, e começo a conhecer-te, não te ficaste só pelas declarações sorridentes e pelas demonstrações públicas de que também tu estavas com a selecção e sofreste como qualquer português sofreu quando aquele espanhol rematou ao poste. Eu sei que és bem capaz de ter ido aos balneários no intervalo do jogo com a Inglaterra quando estávamos a perder e dizer “Meus senhores, isto assim não pode ser. Ou ganham juízo nessas cabeças ou vai tudo corrido à bofetada.” E a seguir deste-lhes a táctica que tão bons frutos acabaria por dar de maneira a que até o treinador te deu razão e reconheceu que com tanto talento também tu podias ser campeão do mundo e nem precisavas de jogadores para nada. No fim do jogo, quando toda a gente celebrava eufórica, não tiveste o reconhecimento merecido pelo que fizeste mas, modesto como és, também não o pediste e limitaste-te a partilhar da alegria comum.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora vais-te embora. E nisso és como Coimbra. Também tens mais encanto na hora da despedida. Tiveste a tua dose de críticas. Uma dose bastante generosa até. Chamaram-te tudo, acusaram-te de muito. Mas olha para eles agora. Vê os que te criticaram a lamentar a tua partida e a manifestarem-se publicamente contra a tua substituição. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não penses que é só por não gostarem do outro gajo. Está bem que tem ar de mafioso e cheira a putas e gosta de aparecer em revistas de mexericos e tem uma ou outra paranóia messiânica e tem ideias que só fazem sentido para ele mas isso são pormenores que não chegam para despertar uma tal onda de mobilização. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me interpretes mal. Atenção. Não te estou a criticar por ires. É verdade que lamento a tua partida e preferia que não fosses mas compreendo-te muito bem. É outra posição e não deixas de ser um homem íntegro por isso até porque a integridade tem limites e quando se deixa escapar uma oportunidade destas deixa-se de ser íntegro para passar a ser parvo. Os que barafustaram contra o tempo que levaste a anunciar uma decisão esperada fariam o mesmo na tua posição. Era só o que faltava fazeres o anúncio antes de teres a certeza absoluta de que ficavas com o lugar e de que cá por casa não estragavam a maioriazinha que tanto te custou a alcançar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Altruísta como és não queres que sejam apenas uns míseros onze milhões de almas a beneficiar do que tens para oferecer quando há mais vinte e quatro países a precisar de ti. É a decisão correcta. Vai, Zé Manel. Não olhes para trás. Nós havemos de ficar bem. O outro gajo pode elevar a prostituição à qualidade de actividade económica por excelência do país, pode até transformar centros de saúde e escolas em discotecas e clubes de strip mas não há-de ser nada. Não penses mais em nós, Zé Manel. Eu sei o que te custa. E os outros todos também sabem. Vai em frente. Se puderes fazer alguma coisa por nós quando estiveres lá em cima, melhor, se não puderes nós percebemos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quando estiveres no teu gabinete com ar-condicionado a ouvir alguém a explicar-te em francês, alemão ou espanhol (com tradução simultânea, claro, porque sabemos que nunca foste muito dado a línguas estrangeiras) o que deves dizer a respeito deste ou daquele assunto, pensa em nós de vez em quando. Nos que têm de aprender a viver com um túnel do Marquês gigante de Faro a Caminha, com um casino e uma feira popular plantados no meio de cada parque natural e reserva ecológica, com a Kapital com o estatuto de residência oficial alternativa do nosso líder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adeus, Zé Manel. Só te desejo coisas boas.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assinado: Um amigo e admirador&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6678341-108847033128817109?l=atrasado-mental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/108847033128817109'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/108847033128817109'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atrasado-mental.blogspot.com/2004_06_01_archive.html#108847033128817109' title=''/><author><name>Salustio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06790931641188930562</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://2.bp.blogspot.com/_YQWGFPNE2b0/SYBiMPMz2dI/AAAAAAAAA6g/FePjZp0hUO8/S220/maca2.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6678341.post-108761268140670319</id><published>2004-06-19T03:05:00.000+01:00</published><updated>2004-06-19T03:38:01.406+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;b&gt;As armas e os barões&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comprei uma bandeira para pendurar na janela. Custou-me um euro e vinte na loja de um chinês. Nunca pensei que o orgulho de uma nação quase milenar se pudesse adquirir por um preço tão em conta. E ainda me ofereceram um conjunto de luzes de Natal com desfeito (piscam mas só quando lhes apetece-é o último grito da inteligência artificial made in Singapore).&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Só quando cheguei a casa e desdobrei o estandarte para o examinar melhor é que percebi que havia ali qualquer coisa que não estava bem. No meio de cada quina havia cinco estrelinhas amarelas dispostas em padrão de cruz. Em vez dos castelos do escudo, uns estranhos objectos amarelos que se assemelhavam vagamente a carros de fórmula 1 vistos de cima. E o que mais me desagradou foi o facto de, quando me ensinaram o significado das quinas, da esfera armilar, do vermelho e do verde, ninguém me ter dito que a bandeira portuguesa ostenta por baixo do escudo a inscrição “PORTUGAL EURO 2004” a amarelo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Guardei-a no saco para reclamar com o chinês que ma tinha vendido. Não querem lá ver a brincadeira! Se calhar, também gostava que lhe vendesse uma bandeira da República Popular que, em vez das cinco estrelas de cinco pontas amarelas, tivesse cinco pikachus em poses de atleta (tão atleta quanto um pokemon pode aspirar a ser, pelo menos).&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;É indecente que haja gente que se aproveite de maneira descarada do patriotismo dos portugueses. Esperem. Não era bem patriotismo que queria dizer porque, realmente, não é disso que se trata. É mais patriotice. Um ataque passageiro de patriotice exacerbada.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;E a culpa é de Marcelo Rebelo de Sousa, esse Nun’Álvares dos tempos modernos. Foi ele o primeiro a apelar aos portugueses para exibirem a bandeira e mostrarem assim o seu apoio à selecção nacional. Pelo menos, a TVI diz que foi ele o primeiro e se uma informação vem de fonte tão fidedigna como esta, quem sou eu para duvidar? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei é se será só por causa da selecção. Parecem-me coincidências a mais. Primeiro, é a iniciativa “Portugal em Acção” promovida pelo governo há vários meses. Não sei bem o que é ou para que serve mas não há dúvidas de que dá um rico logotipo para pôr em autocolantes e camisolas. Faz lembrar campanhas como aquela que, durante o Estado Novo, sobrepunha mapas do império ultramarino a um mapa da Europa com a frase “Portugal não é um país pequeno” por baixo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O objectivo parece ser mais ou menos o mesmo. Convencer os portugueses de que as coisas não são tão más como são na realidade e desencantar motivos de orgulho entre coisas aparentemente inócuas como o tamanho dos países (apesar de não ser o tamanho do país que interessa mas sim o que se faz com ele). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só que agora já não temos colónias para sobrepor ao mapa da Europa e se fizéssemos o mesmo com silhuetas do ministro Paulo Portas nu em poses pornográficas, muita gente iria levar a mal apesar de ser possível que uma boa parte adorasse. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E também é verdade que do aparelho do Estado Novo fazia parte gente que pensava. Podiam não o fazer com as melhores intenções do mundo mas pensavam. É claro que não vou dizer que no governo actual ninguém pensa mas só não o faço porque agora não me apetece e também porque toda a gente já o sabe, incluindo o primeiro-ministro que afirmou na noite das eleições europeias ter percebido a mensagem que os portugueses lhe quiseram transmitir. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tive pena de não saber antes que era possível transmitirmos mensagens ao primeiro-ministro. Se tivesse sabido, em vez da cruz, tinha aproveitado o boletim para escrever um recado de algumas linhas ao nosso homem do leme. Tenho de me lembrar disto para as próximas. E de ver se a legislação eleitoral diz alguma coisa acerca de um número máximo de palavrões que pode ser inscrito no boletim de voto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E haverá motivo para tamanha onda de patriotice? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Francamente, acho que sim. Diz-se que Portugal está na cauda da Europa (posição de que fomos afastados temporariamente por alguns dos novos estados-membros da União Europeia mas só até estes conseguirem organizar a sua vidinha e passar-nos à frente como fizeram os outros todos). E eu pergunto: isso é assim tão mau? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Imagine-se a Europa como uma coluna militar. Numa coluna militar, as posições que exigem maior coragem e espírito combativo da parte dos soldados, para onde ficam guardados os mais bravos homens de cada exército, são precisamente a frente e a retaguarda porque cabe-lhes a responsabilidade do primeiro embate com as tropas inimigas (a frente) ou a resistência a um ataque à traição (a retaguarda). Com isto, acho que só não vê quem não quiser que os países de maior valor da União Europeia são Portugal e a Alemanha, a retaguarda e a frente desta grande coluna militar em que vivemos. Ou a Suécia. Ou a França. Ou a Holanda. Não interessa quem está na frente. Há várias escolas de pensamento a esse respeito. Mas a retaguarda é nossa sem dúvida nenhuma. A Grécia tentou roubar-nos o que era nosso por direito durante vários anos mas lá os conseguimos pôr na ordem e instalar-nos no fundo de todas as tabelas estatísticas compiladas em Bruxelas e arredores. (De igual forma se costuma dizer que somos “o cu da Europa” mas nem valerá a pena lembrar a importância que a dita parte da nossa anatomia tem para todos.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os portugueses deram novos mundos ao mundo. Outro motivo de grande orgulho. Os holandeses, os espanhóis, os franceses e os ingleses também mas menos e os novos mundos deles não têm a mesma qualidade dos nossos e não consta que uma ex-colónia espanhola ou holandesa tenha alguma vez ganho o campeonato do mundo de futebol. A Argentina e o Uruguai não contam porque estão muito perto do Brasil e beneficiaram muito da influência lusitana. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguns dos nossos compatriotas contam-se entre as maiores mentes que a humanidade já conheceu. O brilhante Egas Moniz fez (quase de certeza) qualquer coisa tão genial que lhe deu direito a figurar na antiga nota de dez mil escudos. José Saramago ganhou o Nobel da literatura, distinção só atribuída aos cidadãos de países reconhecidos como colossos culturais de estatura idêntica à da Nigéria ou à de Santa Lúcia, por exemplo, países de origem de alguns dos antecessores do nosso Zé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E depois temos o fado. O nosso fado. E a nossa Amália. E a nossa sardinha assada. E os nossos vinhos, os nossos manjericos, o nosso alho porro, as nossas minhotas e caravelas em filigrana. As açoteias algarvias e os bordéis trasmontanos. Os prostitutos juvenis do parque Eduardo VII e os campinos do Ribatejo. O bacalhau com natas, as francesinhas, as febras no pão e as “ajudazinhas” enfiadas num envelope discreto passado por baixo da mesa para “dar um jeitinho, não custa nada, é para isso que servem os amigos, ó senhor engenheiro fico-lhe a dever um favor, não quer dar umas voltas com a minha mais velha? olhe que se quiser está à vontade que a cachopa até já foi estreada por um marçano lá da terra e por isso não faz grande diferença e ela até agradece um padrinho como voss'ência.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E é por isso que eu penduro a bandeira. Quero lá saber que me achem foleiro. Não vale a pena dizerem-me que está mal, que as pessoas só alinham nesta parvoíce por causa da bola e que quando isto passar vão enfiar as bandeiras na gaveta e nunca mais se lembram onde as meteram e que é só mesmo o futebol que ainda vai justificando a existência/subsistência deste relicário de Afonsos de Albuquerque, Luíses de Camões, Afonsos Henriques, príncipes perfeitos, Eusébios e reis desterrados perdidos no nevoeiro de uma parvónia marroquina e que hão-de voltar qualquer dia, logo que consigam achar quem lhes dê boleia até à cidade mais próxima, o que não há-de ser fácil porque nem por ali passam muitos carros nem haverá muita gente disposta a dar boleia a um cadáver ambulante com 400 anos.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;E é por isso que Portugal é o maior e sempre há-de ser! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quer dizer...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A não ser que a selecção perca com a Espanha no Domingo. Nesse caso, voltamos a ser a porcaria costumeira. Mas não há crise. Planeio trocar a bandeira que comprei ao chinês por uma reversível que tem a bandeira do brasil do outro lado e que só custa mais 50 cêntimos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o Brasil não nos há-de desiludir nisto de futebóis. &lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6678341-108761268140670319?l=atrasado-mental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/108761268140670319'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/108761268140670319'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atrasado-mental.blogspot.com/2004_06_01_archive.html#108761268140670319' title=''/><author><name>Salustio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06790931641188930562</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://2.bp.blogspot.com/_YQWGFPNE2b0/SYBiMPMz2dI/AAAAAAAAA6g/FePjZp0hUO8/S220/maca2.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6678341.post-108640407453950511</id><published>2004-06-05T03:35:00.000+01:00</published><updated>2004-06-19T16:19:13.673+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;b&gt;Elas e eles&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há alturas na vida de uma pessoa em que é preciso ganhar coragem e denunciar certas situações doa a quem doer e mesmo que isso possa vir a trazer complicações para o próprio denunciante. Atravesso neste preciso momento uma dessas fases. Vou denunciar o que tenho a denunciar sem medos e sem me preocupar com a minha própria integridade física e moral porque sou um gajo assim corajoso como já há poucos.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Falou-se recentemente em instituir quotas que salvaguardem a sobrevivência de uma espécie ameaçada. Não é o panda gigante nem o tigre da Sibéria e muito menos o lince da Malcata. A espécie ameaçada, meus amigos, é o médico. O bom e confiável médico que nos espreita para dentro da garganta, que nos apalpa, que nos receita coisas que sabem mal mas fazem bem, que olha para as nossas partes impronunciáveis e diz “nunca tinho visto uma coisa destas em trinta anos de carreira.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mesmo médico que nos pisca o olho quando apanhamos doenças marotas e nos faz sentir que tudo está bem, que, mesmo que a genitália esteja envolta em prurido, é apenas uma mazela fruto do cumprimento do nosso dever másculo de espalhar a sementinha e contribuir para a subsistência da humanidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois bem, este simpático personagem que já fazia rastreios da sífilis aos nossos trisavós, está em risco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E porquê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É simples. Porque cada vez há menos homens nos cursos de medicina e mais mulheres. Claro que me vão dizer: “Mas é a mesma coisa. Elas têm a mesma formação e são com toda a certeza tão competentes como os homens no desempenho da sua actividade.” Não digo que não sejam. Não posso é concordar que seja a mesma coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Exemplifico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Imagine-se um português típico. Chamemos-lhe Ernesto. Ora, o Ernesto tem 38 anos, foi pára-quedista, esteve na Bósnia a defender a pátria (que é Portugal e não a Bósnia, claro está-a não ser para os bósnios que pensarão exactamente o contrário). É casado. Tem duas filhas. Uma chama-se Vanessa, a outra não. A mulher dorme com o carteiro quase todas as manhãs mas ele não sabe e ainda bem porque é preciso manter a paz doméstica.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;O nosso Ernesto costuma ir às meninas, como homem à moda antiga que é. Recentemente, descobriu uma verruga estranha no seu... bom... na ferramenta, digamos. Lembrou-se de uma vez em que estava apertado e não encontrou a menina do costume e vai daí, teve de se aviar com uma que não conhecia de lado nenhum e que nem referências tinha. Culpou-a a ela pela verruga. Ainda por cima, levou-lhe mais dinheiro e nem sequer fez o serviço como deve ser. A competência é uma coisa muito importante, realmente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de muito pensar, e sem saber que a peculiar maleita lhe tinha sido passada pelo carteiro por intermédio da sua esposa, decidiu-se a ir ao médico. Marcou consulta num urologista, faltou ao trabalho com o pretexto de ir pôr o carro na revisão e lá se apresentou no consultório à hora marcada. Entrou no gabinete, sentou-se e esperou pacientemente que o médico chegasse.&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;E o médico chegou. Só que o médico era uma médica! Uma médica, pois. Uma mulher com uma bata branca tal e qual. E não é que, como se isso não chegasse, tem o descaramento de perguntar “então diga lá o que se passa”? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É claro que o Ernesto inventou uma desculpa qualquer e se pôs dali para fora o mais depressa que pôde (não houve grande problema porque a verruga acabaria por desaparecer sozinha alguns dias mais tarde e sem repercussões). O que é que era suposto o homem fazer? Baixar as calças e pôr ali tudo ao léu em frente da rapariga? Mas onde é que isso já se viu? Não há lei? Não há respeito? Não há moral? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Está bem que muitos ginecologistas são homens e que, mesmo assim, uma boa parte dos seus clientes (senão a maioria) são mulheres mas não é o mesmo. São situações inteiramente diferentes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve quem não levasse a ideia das quotas nos cursos de Medicina a sério. Houve quem ridicularizasse os seus autores. Mas os que o fizeram sentirão na pele os efeitos da sua inconsciência num futuro que se avizinha perigosamente próximo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E não é só nos cursos de Medicina que o desequilíbrio entre alunos e alunas se faz sentir mas em todo o ensino superior. As poucas excepções são sobretudo cursos ligados à informática e a Engenharia Civil mas coloquemos de parte cursos que só existem para que os tontinhos dos computadores também possam estudar na universidade ou cursos para quem queria ser arquitecto mas não tem jeito para o desenho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da mesma forma que os médicos estão a ser substituídos por médicas, os sociólogos estão a ser substituídos por sociólogas, os advogados por advogadas, os geógrafos por geógrafas e por aí fora. Até se começa a notar um aumento do número das etnomusicologistas em detrimento dos etnomusicologistos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda se este domínio feminino do meio académio se devesse a motivos justos, era outra conversa. Mas não é o caso. As estudantes têm uma vantagem injusta em relação aos colegas. Está provado cientificamente que elas têm maior facilidade em aplicar-se nos estudos porque uma rapariga não tem os mesmos deveres sociais que um rapaz. Enquanto elas, ajuizadas e tranquilas por natureza, podem passar grandes períodos de tempo entregues ao estudo, eles são obrigados a fazer cedências para dar largas aos apelos da sua natureza viril. Imagine-se um jovem que é solicitado por uma companhia feminina para uma saída a local de diversão nocturna seguida de coito. Esperar-se-á que diga: “Ó filha, desculpa lá mas hoje não pode ser porque tenho de estudar”? Claro que não. Seria absurdo e antinatura. A generalizar-se este tipo de coisa, quem seria o pai das crianças do amanhã? Quem lutaria contra o envelhecimento gradual da população? Quem daria emprego a pediatras, educadoras de infância e fabricantes de bibes?  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sendo assim, não faltará muito para começarmos a ter mais deputadas que deputados, mais ministras que ministros, primeiras-ministras, mulheres a ocupar a presidência da república, mulheres a comandar as forças armadas. Mulheres, mulheres, mulheres por todo o lado. &lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Não se trata de machismo mas de racionalidade. Todos sabemos, a começar pelo bastonário da Ordem dos Médicos, que há diferenças entre os sexos e que essas diferenças vão além da simples anatomia, o que torna ruinosa a ocupação pelas mulheres dos lugares tradicionalmente ocupados pelos homens na sociedade em que vivemos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E não é uma opinião subjectiva mas sim algo perfeitamente comprovável à luz da razão. É sabido que a mulher média tem um rabo consideravelmente mais amplo  do que o homem médio. Ora, se as mulheres ocupam os lugares dos homens, veja-se o prejuízo que isso não trará na adaptação dos assentos aos assentos femininos. Vivemos tempos de crise económica e isto, pura e simplesmente, não pode ser!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É por motivos sérios e gravosos como os que aqui expus que homens dignos e preocupados com o bem-estar comum e com a preservação do nosso modo de vida levantaram a hipótese das quotas nos cursos de Medicina. E, provavelmente, deveriam ser propostas quotas em todos os cursos para salvaguardar a sobrevivência do Homem num mundo cada vez mais feminino. Assim mesmo. Sem medo de polémicas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque, afinal, que papel restaria ao macho da espécie? O de mero objecto sexual tendo como únicos deveres abrir frascos, carregar caixotes, segurar malas e sacos à porta de gabinetes de prova e ir comprar tampões ao hipermercado?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por mais que a parte do “mero objecto sexual” tenha deixado os leitores masculinos demasiado ocupados a fantasiar para ler o resto, há que pensar na importância que o status quo actual (com os homens a mandar) tem para a manutenção do modo de vida ocidental, padrão para todos os povos que se querem desenvolvidos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Afinal, foi com os homens como sexo dominante que, ao longo de séculos incontáveis, a humanidade conseguiu transformar o mundo no sítio aprazível, pacífico, respeitador, organizado, justo, limpo e equilibrado que hoje é. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para quê mexer em equipa que ganha?  &lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6678341-108640407453950511?l=atrasado-mental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/108640407453950511'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/108640407453950511'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atrasado-mental.blogspot.com/2004_06_01_archive.html#108640407453950511' title=''/><author><name>Salustio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06790931641188930562</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://2.bp.blogspot.com/_YQWGFPNE2b0/SYBiMPMz2dI/AAAAAAAAA6g/FePjZp0hUO8/S220/maca2.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6678341.post-108571360345228604</id><published>2004-05-28T03:54:00.000+01:00</published><updated>2004-05-28T04:16:35.773+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;b&gt;O meu amigo Zé&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Conheço o meu amigo Zé há muito tempo. Desde que fomos colegas de liceu. Era um rapaz tímido e pouco dado aos folguedos próprios da idade. Andava muitas vezes sozinho e notava-se que se esforçava por escapar ao convívio com os colegas. Mesmo assim, comecei a falar com ele e acabámos por ficar amigos. Com o passar do tempo e, em parte, devido à minha influência, o meu amigo Zé foi-se tornado mais sociável. Depois ficámos em turmas separadas e só ia sabendo dele muito de vez em quando.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Soube mais tarde que o meu amigo Zé se tinha decidido a seguir Direito e até conseguiu entrar numa escola com uma certa reputação. Não passou lá muito tempo. A meio do primeiro ano, desistiu alegando "falta de vocação e disparidade inultrapassável entre o conceito ético-moral de Direito e a prática da advocacia." No ano seguinte, matriculou-se num curso de Sociologia de que desistiu passados dias, tempo suficiente para perceber que se tratava de uma “pseudo-ciência inócua” e foi para Filosofia (não teve de andar muito desta vez porque os departamentos ficavam no mesmo andar.) Ainda se aguentou por lá dois anos e tal. Agradava-lhe a discussão de conceitos nas aulas e o facto de, por vezes, conseguir superar e até contradizer a argumentação de alguns professores menos dotados, o que lhe fazia muito bem ao ego outrora tão maltratado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o meu amigo Zé também não tinha nascido para filósofo. Aborreceu-se com tanta conversa quando descobriu a militância política. Conheceu uns colegas que estavam ligados a um movimento político de extrema esquerda entretanto extinto. Não era bem um partido porque no manifesto (uma folha arrancada de um caderno e rabiscada de um lado e doutro) lia-se que “os partidos constituem parte integrante de um status quo que traduz a decadência da democracia ocidental.” O autor da frase, então mentor do movimento (só mentor, porque não acreditavam em hierarquias apesar de não serem propriamente anarcas, visto que consideravam a anarquia um “anticonceito”) afastar-se-ia deles algumas semanas depois quando começou um namoro com a filha de um banqueiro muito conhecido. Hoje é casado, tem dois filhos e gere uma agência de publicidade mantida com dinheiro da mulher. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para melhor se poder dedicar à causa (ou a descobrir qual era a causa, ao certo), o meu amigo Zé abandonou os estudos para grande desgosto dos pais que ainda alimentavam a esperança de que as constantes mudanças de vocação e de curso o levassem à Medicina. Arranjou emprego numa livraria muito conhecida, que também tem secção de discos, para ganhar dinheiro que pagasse a sua parte do aluguer de uma cave com dois quartos em que vivia com três companheiros ideológicos e com o cão de um deles a que tinham mudado o nome de “Piruças” para “Trotzky,” assim mesmo com Z em vez de S. Divertiam-se muito sempre que alguém perguntava o nome do animalejo e eles respondiam. Nunca ninguém percebeu porquê, o que só os fazia rir mais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O movimento acabaria por se auto-dissolver por alturas de um campeonato do mundo ou da Europa e porque os seus membros passavam tardes inteiras a ver todos os jogos que davam na televisão, fazendo uma ronda pelos cafés da cidade que vendessem cerveja, esquecendo-se de ir às reuniões em que era suposto discutirem os motivos da situação actual e os métodos mais adequados para passar à situação seguinte que se esperaria melhor ou, pelo menos, não tão má como a presente. O único companheiro que não cedeu foi uma rapariga, que representava os interesses femininos no grupo, mas também não fez grande diferença porque foi mais ou menos na altura em que ficou grávida de um maoísta que participava nuns debates que organizavam de vez em quando com gente de outras correntes ideológicas (inferiores, claro) e que foi viver com um tio na Venezuela mal soube, forçando a jovem mãe a casar com o primeiro palerma que lhe apareceu à frente, neste caso, um bate-chapas amigo de infância e com muito boa reputação lá no bairro de ser um homem sério e trabalhador mas que era feio como os trovões e mal sabia escrever o próprio nome. Hoje, tem quatro filhos e vem outro a caminho (nunca se descobriu que o primeiro tinha sangue maoísta), o marido bate-lhe com frequência mas já se habituou e até é especialista em disfarçar hematomas. (Para quem gosta de ficar com os pormenores todos, o maoísta perdeu-se na Amazónia e nunca mais foi visto. Dizem que foi resgatado por uma tribo de índios junto dos quais promoveu uma revolução cultural mas desistindo da economia socialista que, fique a saber-se, não funciona em sociedades paleolíticas). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu amigo Zé sente-se bem no seu emprego e não considera que seja um mero posto de assalariado. Diz aos que querem ouvir, e também aos que não querem mas disso não se livram, que se realiza mais assim, “a lidar com cultura sólida e palpável que todos os dias arruma nas prateleiras” do que com qualquer cursozeco académico que só serviria para fazer dele mais um licenciado alienado da “verdadeira essência das coisas.” Porque o meu amigo Zé é uma pessoa da cultura. É vê-lo a rir-se na cara de pessoas que lhe perguntam onde está o livro tal ou o disco xis, dando a entender (ainda que não entendam, mas aí é problema deles) que a sua escolha e o seu gosto não são correctos e que se devem esforçar ao máximo para os mudar ou, simplesmente, deixar de vir ali chatear quem tem mais que fazer do que aturar coisas destas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi precisamente nesta livraria que vi o meu amigo Zé, ao fim de muitos anos, no desempenho dos seus deveres profissionais e culturais. Saudámo-nos efusivamente, trocámos resumos do que de mais marcante tinha acontecido a cada um nos últimos anos e perguntou-me que livro levava a caminho da caixa. Respondi e vi-lhe um sorriso condescendente. Perguntei-lhe então eu se já tinha lido o livro em questão ou se conhecia alguma coisa do mesmo autor e disse-me que não, que não lia best-sellers. Perguntei porquê e explicou-me que a literatura comercial não era o que mais lhe interessava. Disse que estava com pressa e fui-me embora. Ele para lá ficou a tirar DVDs do Fernando Rocha de uma caixa e a enfiá-los na letra F da prateleira que dizia “Comédias.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguns meses depois, voltei a ver o meu amigo Zé num cinema onde costumam passar filmes que já saíram do circuito comercial. Estava com uma rapariga desengraçada e amareliça com óculos de lentes grossas e riam-se muito alto. Fingiu não me ver mas, ingénuo, lá fui falar com ele. Perguntou-me se vinha ver o filme. Disse que sim. Perguntou-me o que achava do realizador. Disse que gostava e que até já tinha visto este filme mas preferia o anterior, o tal que tinha sido nomeado para um Óscar. A amiga riu-se e ele também, acrescentando que “os Óscares são a panaceia do cinema contemporâneo submetido ao comodismo burguês.” Não respondi e, quando pensava em justificações para me afastar, perguntou-me qual o último filme que tinha visto. Tornei a responder e tornaram a rir-se. Desta vez, porque ele não me sabia tão “mainstream.” Não pedi explicações mas também não seria preciso. Fez-me ver que se tratava de uma produção de Hollywood e desafiou-me a contestar a afirmação de que “a validade plástica do cinema enquanto arte se afastou de tal maneira da estética hollywoodesca que os filmes que por ela são concebidos estão inteiramente desprovidos de contextualização simbólica.” Eu disse qualquer coisa que não se encaixava ali e voltou o sorriso condescendente. Felizmente, as portas da sala abriram-se e despedimo-nos. Antes, ainda me deu a morada do seu blog.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me surpreendeu que o meu amigo Zé estivesse representado na blogoesfera. Visitei-o online e li algumas das entradas mais recentes. Uma das que mais me chamou  a atenção era a resposta a alguém que tinha dito qualquer coisa noutro blog a respeito do que tinha dito certo blogueiro afamado que se desconfia ser figura conhecida do mundo da política. O comentário terminava com uma citação de um escritor francês com dois erros de grafia e um de concordância de género. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há pouco tempo, por portas e travessas, fiquei a saber que o meu amigo Zé, com quem não me voltei a cruzar, pretende casar-se em breve com a tal rapariga de óculos de lentes grossas ou outra qualquer parecida. Diz a toda a gente que não acredita no casamento e que o fará apenas, de comum acordo com a futura e afortunada esposa, como “manifestação performativa com inspirações dadaístas notórias” em protesto contra a imutabilidade das estruturas familiares judaico-cristãs. Fiquei também a saber que pretendem sair do país, que consideram “estagnado de forma revoltante e irreversível sobretudo ao nível das esferas intelectuais” e ir morar para a Europa de Leste, talvez na Bulgária ou na Roménia, onde viverão da venda dos quadros que ela pinta até ele conseguir notoriedade como poeta, a sua derradeira vocação. Ao que parece, publicou um livro de poesia com várias páginas, quase todas contendo letras, que recebeu críticas muito boas (uma delas, a melhor, é de um dos ex-companheiros do movimento político que voltou a reencontrar numa exposição de fotografia depois de muitos anos). A viagem ainda não está marcada mas ficará para depois do casamento, cuja data também ainda não se conhece. Amigos comuns, que por circunstâncias da vida, acabaram por ficar a conhecer melhor o meu amigo Zé do que eu próprio, dizem-me ser altamente improvável que se case ou que vá para fora. Parece que o amigo que lhe elogiou a obra poética tem um amigo que conhece alguém que lhe pode arranjar uma posição como cronista num conhecido jornal diário propriedade de um grande grupo empresarial que tem no cimento o seu principal ramo de actividade. Também se diz que é bastante provável que aceite e até há quem adiante que já o ouviu comentar que “não é uma rendição ou uma abdicação de valores mas sim o aproveitamento de uma oportunidade ímpar para minar o sistema por dentro.” Fala-se num ordenado com muitos zeros. E a rapariga de óculos de lentes grossas já se tem queixado de que ele a trata mal por achar que se acomodou e que já não revela "o mesmo espírito crítico e poder de encaixe dos primeiros tempos."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo parece correr-lhe bem mas, apesar disso, o meu amigo Zé tem um grande problema. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É que o meu amigo Zé não existe. E ainda bem.   &lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6678341-108571360345228604?l=atrasado-mental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/108571360345228604'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/108571360345228604'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atrasado-mental.blogspot.com/2004_05_01_archive.html#108571360345228604' title=''/><author><name>Salustio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06790931641188930562</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://2.bp.blogspot.com/_YQWGFPNE2b0/SYBiMPMz2dI/AAAAAAAAA6g/FePjZp0hUO8/S220/maca2.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6678341.post-108457318832068912</id><published>2004-05-14T23:01:00.000+01:00</published><updated>2004-05-14T23:19:48.320+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;strong&gt;Eu gosto de Fátima&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Podia ser uma declaração de amor platónico pela martirizada (e sexy, sejamos sinceros, a mulher só com a voz faria Sua Santidade o Papa ter uma erecção) ex ou actual ou futura presidente (possivelmente as três coisas ao mesmo tempo) da câmara municipal de Felgueiras. Mas não é. Fica para outro dia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Falo da outra Fátima. Da que tem uma capelinha das aparições em vez de um saco azul e um apartamento com vista sobre Copacabana. E não é pelo pitoresco da coisa nem por convicção religiosa que manifesto a minha afeição. Considero que Fátima desempenha, e tem desempenhado ao longo das décadas, um papel profiláctico na sociedade portuguesa e que esse papel se tem mantido inalterado com a passagem dos anos e com todas as mudanças que o país tem atravessado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A profilaxia de que falo faz ou fez-se sentir de várias formas. Comecemos pelo princípio. Tudo começou quando três jovens pastores de nome Lúcia, Francisco e Jacinta foram surpreendidos no desempenho da sua actividade pastoril por uma aparição de Nossa Senhora. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A aparição apresentou-se, disse ao que vinha e a partir daí a história é sobejamente conhecida. Não pretendo discutir a veracidade da aparição. Não sendo propriamente uma pessoa de fé, acredito no entanto que existem fenómenos que não podem ser explicados pela ciência e que três crianças analfabetas de um meio pobre e atrasado vejam uma mulher que permaneceu virgem depois de ter concebido e dado à luz um carpinteiro robusto a flutuar sobre uma moita envolta em luzes, estando morta há mil anos, é precisamente o tipo de coisa em que não me custa nada acreditar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas e se a aparição não tivesse existido? Francisco e Lúcia cresceriam para se tornar gente rude do campo como os seus pais e avós. Casariam, teriam filhos, morreriam de velhos. Os seus nomes seriam lembrados apenas pelos familiares. Hoje, e apesar de terem morrido de doença em idade tão tenra, são beatos venerados por católicos fervorosos em todo o mundo. Com um pouco de sorte e vontade milagreira, chegarão a santos em breve.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quanto a Lúcia, a mais activa no diálogo com a santa, trata-se obviamente de uma mulher de ambição. Se não tivesse visto a virgem mais improvável da história da humanidade a equilibrar-se sobre uma azinheira, teria seguido o caminho dos seus primos. Teria casado, teria sido mãe. Ao longo da sua vida, é provável que tivesse ouvido falar de D. Sebastião, o mítico rei que voltará a Portugal envolto em nevoeiro (ainda não foi hoje, amigos, esperem mais uma semana ou assim). Em vez de ver santas, a sua imaginação prodigiosa fá-la-ia acreditar ser ela a reencarnação do rei desejado, enviada à Terra para salvar o país da perigosa república ateia que o governava. Reuniria seguidores. Os seguidores armar-se-iam. Derrubariam o governo. O movimento espalhar-se-ia a Espanha e, em seguida, a todos os países do mundo católico e até ao mundo herético que descobriria a verdadeira fé pela força se preciso fosse. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em alguns anos, o planeta inteiro seria governado por uma ditadura cruel, férrea e beata em que a reza do terço três vezes ao dia seria mais importante do que as refeições, em que a missa seria uma obrigação diária, sendo as faltas punidas com flagelação na praça pública, em que a Bíblia, o catecismo, os missais e obras piedosas sobre a vida de santos seriam os únicos livros permitidos, em que quem não aceitasse submeter-se acabaria queimado na fogueira (nem tudo seria original, portanto). E, à cabeça de tudo, sentada num trono dourado com almofadinhas de veludo para acomodar o seu amplo e piedoso traseiro, Lúcia contemplaria o império de fé e caridade cristã que tinha construído. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estamos melhor assim, não estamos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi tudo evitado pelas aparições. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rebuscado?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pouco realista?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez. Mas não precisamos de ir tão longe para falar do tal papel profiláctico. Limitemo-nos à realidade contemporânea. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos os anos, milhares de pessoas de todo o mundo vão a Fátima, movidas pela fé em Nossa Senhora e no milagre e fazem-no praticamente desde o início, desde o ano de 1917. Desde essa altura, milhões de portugueses e gente de fora terão ido a Fátima. Uma boa parte destes devotos faz promessas e paga-as das maneiras mais diversas. Há quem queime um peso várias vezes superior ao próprio em cera (sob a forma de velas de vários tamanhos ou de partes do corpo), há quem se desloque a pé do outro extremo do país, chegando ao destino com os pés num tal estado que o próprio Cristo flagelado e crucificado (mesmo o Cristo de Mel Gibson) diria “Bolas... isso está mau, hã?” Há outros que se arrastam de bruços pelo chão ou de joelhos, ou fazendo o pino ou apoiados na extremidade do nariz. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que cada qual faz com o corpo só ao próprio dirá respeito mas uma coisa é indiscutível. As pessoas que fazem isto são gente perigosa. Compreendo que muitas o fazem por desespero e porque já não têm mais nada a que recorrer para curar doenças ou resolver situações pessoais desagradáveis. Também sei que a maior parte é gente sem grande capacidade cerebral, como os devotos cegos de qualquer religião, e que não sabem mais do que aquilo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas isso não invalida o que antes disse. Seja por culpa própria ou alheia, são gente perigosa. Quem se arrasta de gatas de Viana do Castelo a Fátima também é capaz de pegar numa espingarda, ir para um mercado e desatar aos tiros. Quem gasta uma fortuna para mandar fazer uma réplica do próprio corpo em cera e em tamanho natural, também não terá qualquer tipo de problema em abrir os cordões à bolsa para financiar a investigação e desenvolvimento de uma bomba nuclear de capacidade destrutiva superior à de todas as existentes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sendo assim, viva Fátima e o seu santuário altaneiro! Enquanto estiverem ocupados a aleijar-se a eles próprios, não estão a aleijar ou a contribuir para aleijar terceiros que não têm nada a ver com os problemas deles e também terão os seus tão ou mais graves. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E depois há os padres. Segue-se um momento de dissertação anti-clerical pouco fundamentada por isso, quem tiver alguma coisa contra é melhor parar de ler por aqui. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Fátima, existe uma maior concentração de sacerdotes do que em qualquer outra parte do país, o que constitui um perigo incontornável (excluo as freiras porque são relativamente inofensivas fechadas nos seus conventos ou a dar catequese no meio da floresta tropical e só pensam em evangelizar o próximo e em técnicas masturbatórias originais). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em qualquer sítio com uma tal concentração de padres católicos, a inquisição pode acontecer a qualquer altura. É a lei da natureza e tão infalível como dizer que se formos enfiando crocodilos no mesmo charco e não os alimentarmos, eventualmente, estes vão começar a devorar-se uns aos outros. Os padres não se devoram uns aos outros. Pelo menos, apenas alguns o fazem e acredito que sejam mais meigos do que os crocodilos mas é dar-lhes tempo e poder e, mais década, menos década, vamos ter autos de fé, tribunais do santo ofício, confissões arrancadas à força de ferros em brasa e práticas de igual colorido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, mesmo assim, é preferível que ardam uns quantos peregrinos que se atreveram a entrar na basílica expondo os cotovelos de forma pecaminosa ou que digam “Oh diabo, está calor” numa tarde quente de Agosto do que haver mais paladinos da fé libertos das obrigações relacionadas com a administração do santuário e com a contagem do dinheiro resultante da venda de santinhos e imagens de Cristo a três dimensões para reforçar as fileiras da cruzada contra o preservativo e o aborto porque o vírus da SIDA (e das outras doenças menos mediáticas) também é uma criatura de Deus e porque o Criador gosta de ver o mundo que criou bem povoado por indigentes esfomeados que lhe lembram os bons velhos tempos em que meia dúzia de almas privilegiadas se sentavam em cadeirões confortáveis enquanto o resto esgravatava no lixo por uns pedaços de imundície menos repelentes e mais comestíveis, dizendo que sim a tudo e nunca questionando nada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem haja, Lúcia. Bem haja Francisco e Jacinta lá no jardim de infância do paraíso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Termino com uma sugestão. Não sei se é original ou não mas também não estou a tentar parecer perspicaz ou engraçadinho. Só digo isto porque acho que é uma boa ideia e gostava muito de a ver concretizada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Existe no santuário de Fátima, percorrendo a praça principal, uma faixa de pedra polida que ali foi instalada para facilitar o caminho aos peregrinos de joelhos e de bruços e a quem alguém (creio que Manuel João vieira) chamou “joelhódromo.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É verdade que Fátima recebe muitos visitantes mas não o é menos que a maior parte são inevitavelmente católicos praticantes ou quase. Para que os ateus, os heréticos, os CNP (católicos não-praticantes) e os crentes de outras religiões comecem a acorrer a Fátima e a beneficiar também eles daquele ar místico que tão bem faz aos humores, é necessário que haja motivos de atracção. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os devotos têm o santuário, a área comercial, o local das aparições, a casa dos pastorinhos, o museu de cera. Por que não instalar uma ou mais faixas de pedra polida ao lado da que existe e organizarem-se corridas? Até se podiam fazer apostas, o que resultaria em mais receitas para o santuário continuar a sua obra de... de... bom... de fé, suponho. &lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6678341-108457318832068912?l=atrasado-mental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/108457318832068912'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/108457318832068912'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atrasado-mental.blogspot.com/2004_05_01_archive.html#108457318832068912' title=''/><author><name>Salustio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06790931641188930562</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://2.bp.blogspot.com/_YQWGFPNE2b0/SYBiMPMz2dI/AAAAAAAAA6g/FePjZp0hUO8/S220/maca2.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6678341.post-108370698281788511</id><published>2004-05-04T22:43:00.000+01:00</published><updated>2004-05-04T22:46:52.483+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;b&gt;Portugal, um país de amores&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O amor é uma coisa linda. Não é? Ora olhem para o cortejo de amigos que rejubila com a libertação de Carlos Cruz. Desde Fialho Gouveia sempre com aquela fidelidade inabalável aos amigos e convicção plena da sua inocência (João Vale e Azevedo que o diga), a Cinha Jardim que não perdeu tempo em vir “dar um beijinho” ao amigo ou Lili Caneças que admitiu “não ser particularmente amiga de Carlos Cruz” mas que apareceu na mesma porque, para aparecer na televisão, dá o cu e oito tostões. (Poucos saberão mas a mediática cirurgia plástica a que Lili se submeteu há algum tempo teve o objectivo de a dotar de mais cus do que aqueles de que a natureza a dotou originalmente para os poder trocar por momentos efémeros de exposição mediática. Para os tostões necessários, conta com a generosidade de amigos mais abonados financeiramente).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o amor do molho de jornalistas que esperava Cruz à porta da prisão e o escoltou generosamente até casa? Digo “molho de jornalistas” por não me recordar agora do substantivo colectivo adequado mas deverá andar algures entre a vara e a cáfila. É amor verdadeiro. Não só pelo apresentador injustiçado mas também por nós todos, espectadores involuntários desse grande espectáculo que é a vida, dependentes em último grau do trabalho jornalístico para sabermos o que se passa lá fora, o tempo que vai fazer na próxima semana, quem subornou quem, quem matou e quem foi morto, que jogador de futebol foi apanhado a conduzir bêbado, que ministro foi apanhado numa casa-de-banho pública com a mão enfiada nas calças de um assessor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Temos a sorte de viver num país em que se dá tamanha importância ao amor. A Alemanha é um país próspero mas os alemães colocam a organização acima de qualquer outra coisa. A Inglaterra é dos países mais influentes do mundo mas os ingleses só se preocupam com chá e biscoitos. A Itália... bom... a Itália não. Mas o Japão domina a tecnologia de ponta a nível mundial e os pobres japoneses têm de viver numa sociedade em que o sucesso profissional se sobrepõe a tudo. Até ao amor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nós temos sorte. Podemos viver num país pobre e atrasado onde Teresa Guilherme é considerada um exemplo entre as mulheres de carreira (em termos profissionais, não falo de prostituição) e onde Francisco Pinto Balsemão é apontado como empresário de sucesso (em termos profissionais e também na prostituição) mas depois, temos o lado positivo para compensar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os portugueses amam e gostam de amar. E esse amor está presente em todos os aspectos do quotidiano nacional mesmo que passe despercebido ou pareça contraditório. Pode haver violência doméstica mas há amor. Quando o marido chega a casa bêbado e parte o nariz à mulher porque perdeu na sueca com os amigos, há ali muito amor. Quando um condutor decide entrar numa auto-estrada em sentido contrário e acelerar, fá-lo por amor. Quando José Cid se deixa fotografar todo nu com um disco a cobrir as partes pudendas... é... não sei bem o que é. Mas de certeza que também haverá amor ali algures (se calhar, escondido atrás do disco, prefiro não pensar muito nisso).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E depois temos pessoas que personificam esse grande amor português. Pessoas como Tomás Taveira, um homem cujo amor é tão extenso que se viu forçado a partilhá-lo com o mundo, o que todos lhe agradecemos porque o fez numa altura em que o mercado da pornografia profissional atravessava uma crise criativa e mais lhe agradecerão os fabricantes do óleo Johnson’s porque tiveram direito a publicidade inesperada e gratuita. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou como o próprio Carlos Cruz que hoje regressa ao conforto do lar. Um homem que espalhou amor pela televisão durante décadas. Que nos deu muito mais do que uma, duas ou mesmo três razões para lhe conferirmos o merecido título de “senhor televisão.” Um homem que acabou prejudicado pelo amor que deu ao mundo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acusam-no de ter molestado sexualmente crianças à guarda de uma instituição que deveria zelar pelo seu bem-estar e educação. E eu pergunto: molestar não é também amar? Praticar o coito anal com uma criança de oito anos não é prova de amor? Sem dúvida que sim. Porque quem viola, abusa, molesta, também ama. E tratando-se de amar desta forma crianças que vivem em meios degradados com famílias problemáticas, mais valioso se torna o gesto porque, se há coisa de que estas crianças precisam, será de amor, venha esse amor sob a forma de uma educação esmerada, do auxílio na escolha de uma carreira profissional, de carinho ou de manipulação genital. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Poder-se-á prender alguém só porque uma criança ou jovem perturbado se lembra de dizer que tal ou tal figura pública dele abusou sexualmente. Será isto motivo para destruir o bom nome de alguém que lutou toda uma vida para o construir? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando se tenta fundamentar acusações pérfidas como esta é que se compreende até que ponto são frágeis. A criança que diz que foi abusada não consegue descrever com minúcia científica cada centímetro quadrado do corpo do seu agressor. Não consegue indicar o nome completo, profissão e local de residência do alegado agressor. Apesar de conseguir descrever com algum rigor o local do abuso, não sabe o código postal respectivo. E quando confrontada com as contradições do seu discurso, gagueja, contradiz-se ainda mais, chora e acaba por dar o dito por não dito, como se padecesse de algum problema emocional ou não tivesse maturidade intelectual suficiente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acabe-se de uma vez por todas com esta palhaçada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Libertem-se os inocentes e façam-se os possíveis para limpar a sua imagem. Apresentem-se pedidos de desculpas. Faça-se o que tem de ser feito. Castiguem-se os mentirosos e os caluniadores com severidade, qualquer que seja a sua idade e sem ligar a circunstâncias atenuantes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, quando tudo isto tiver chegado ao fim, quando o apresentador e o deputado e o médico e o advogado e o embaixador e o humorista e os outros todos de que se falou e aqueles por quem poríamos as mãos no fogo mas que também estão metidos no assunto até ao pescoço, quando todos estes se reunirem numa casa de persianas corridas e longe de olhares maldosos numa terreola obscura para a grande orgia pedófila comemorativa do regresso ao status quo, então, com um adolescente imberbe nu sentado em cada perna, os homens íntegros deste país sorrirão e perceberão que o pior já passou. E então, o amor voltará a fluir livremente mais uma vez.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6678341-108370698281788511?l=atrasado-mental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/108370698281788511'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/108370698281788511'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atrasado-mental.blogspot.com/2004_05_01_archive.html#108370698281788511' title=''/><author><name>Salustio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06790931641188930562</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://2.bp.blogspot.com/_YQWGFPNE2b0/SYBiMPMz2dI/AAAAAAAAA6g/FePjZp0hUO8/S220/maca2.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6678341.post-108310535701842349</id><published>2004-04-27T23:35:00.000+01:00</published><updated>2004-05-01T01:26:05.170+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;b&gt;O cinema português e o fedor característico&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por que é que o cinema português cheira mal? Não estou a dizer isto só para ter assunto. É mesmo uma questão que se me coloca com frequência. Já tem acontecido sentar-me numa sala para ver um filme português, convencido de que “desta é que vai ser” para acabar sempre desiludido, e, mal as imagens surgem no écran, começa a cheirar mal. Literalmente e sem sentidos metafóricos escondidos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outros filmes despertam em mim reacções igualmente desagradáveis, claro está. Por exemplo, sempre que vejo um filme com Renée Zellweger, fico com azia. O filme até pode estar a correr bem e até posso estar a gostar mas mal aparece aquela cara bolachuda de doente com papeira, sinto uma necessidade imperiosa de beber água com gás para ver se aquilo passa. E tentem explicar aos senhores que trabalham nos bares à porta de alguns cinemas que querem uma água com gás e não um balde de cartão com uma quantidade de pipocas que corresponde à produção anual de milho da Eritreia. Não é fácil. Ainda por cima, têm aquela mania dos tamanhos. Tudo é pequeno, médio e grande. Para que quereria eu uma água com gás grande? Para me enfiar lá dentro e fazer um tratamento termal?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que me chateia é que, no caso do cinema português, é toda uma nacionalidade que fica associada ao mau cheiro e não apenas um filme específico. Chateia-me mais ainda porque, apesar de já ter tentado resolver isso, a referida nacionalidade até é a minha e, por causa dos sacanas da embaixada do Paraguai que não quiseram aceitar a minha proposta de cidadania, agora vou ter de falar sobre isso. Ora pimba!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não direi, nem ninguém poderá dizer porque se o fizer é uma besta, que o cinema português é todo igual, ou seja, mau. Isso é mentira. Nem se pode dizer que os realizadores portugueses no activo (João César Monteiro morreu e Oliveira já nem é português) são todos uns imbecis, o que também não corresponde à verdade. Há o Fernando Lopes, o homem que fez coisas como o “Belarmino” ou o recente “Delfim” que foi, provavelmente, o único filme português a não cheirar mal nos últimos 30 anos. Os restantes distribuem-se pelos vários níveis da grande escala da azelhice esclarecida e da presunção infalível. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Joaquim Leitão não tem realizado grande coisa nos últimos anos e ainda bem porque como actor até consegue às vezes ser menos mau (com os actores que temos, não é difícil ser-se menos mau mas isso é outra conversa). Mesmo assim, o país agradece-lhe ter posto Maria de Medeiros a dizer “vai à merda,” alimentando assim as fantasias masturbatórias de muito boa gente durante muito tempo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O par José Fonseca e Costa/António Pedro Vasconcelos é especial. Tanto um como o outro realizaram no passado filmes que até se vêem relativamente bem (ou se calhar é só porque a qualidade do som dos filmes portugueses anteriores a 2000 era tão má que, por não termos percebido metade do que foi dito, imaginámos uma coisa de qualidade superior à real). Mas a sua produção actual retira-lhes o pouco mérito que teriam por isso. Especial destaque para António Pedro Vasconcelos que, só por “Jaime,” merecia ver esse destaque traduzido em obrigarem-no a bater com a cabeça na parede até fazer buraco (na cabeça ou na parede).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;João Mário Grilo é um pindérico com a mania mas tem um talento nato para escolher títulos ironicamente adequados às porcarias que faz. Lembro-me de “A Falha” ou “Longe da Vista” por exemplo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;João Botelho até vai tendo uma ou outra ideia engraçada mas a concretização é sempre desastrosa (vide “A Mulher que Acreditava Ser Presidente dos Estados Unidos da América” também conhecido em alguns círculos como “O Homem que Acreditava Ser Realizador de Comédias de Costumes”). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois há os novos valores (no sentido mais escatológico do termo). Leonel Vieira podia ser deportado para a selva amazónica, tendo por única companhia Diogo Morgado, obrigado a mudar-se para a Zona J de Chelas tendo como único guarda-roupa túnicas do Ku Klux Klan e forçado a engolir uma bomba (para quem não está dentro destas coisas, esta frase contém referências aos títulos de três filmes do realizador em questão, descubra quais e habilite-se a fabulosos prémios), que, mesmo assim, não teria o castigo merecido pela audácia criminosa de desperdiçar película com os seus filmes (ainda que a cara de parvo e o déficit cerebral o tornem inimputável).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Edgar Pêra representa uma estética cinematográfica mais alternativa. E consegue ser tão alternativo que se torna perfeitamente inócuo. Eu nem tenho nada contra arranjar emprego para amigos que gostavam de ser actores ou directores de fotografia, mas se houvesse maneira de o fazer no fundo do mar, fica muito agradecido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Joaquim Sapinho foi durante algum tempo considerado a coqueluche do cinema português moderno. Os seus filmes (os dois únicos que fez, felizmente) mostravam arrojo, coragem para abordar temas polémicos, actores que não abriam a boca para falar, diálogos vomitáveis, histórias que não iam para lado nenhum, planos enjoativos... Até que se percebeu que não. Era só fogo de vista. Fica para a história o impacto mediático que teve a obra de estreia, “Corte de Cabelo,” o equivalente cinematográfico a uma operação à apendicite sem anestesia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E nem mesmo Fernando Lopes escapa à onda malcheirosa. Quem tiver azar e não souber ao que vai, ainda poderá ver nas salas o seu último filme, uma coisa chamada “Lá Fora” que repete o elenco do “Delfim” mas substitui a adaptação do romance homónimo de José Cardoso Pires (feita, e bem feita por mais que me custe admiti-lo, por Vasco Pulido Valente) por um argumento original do crítico de cinema João Lopes que, se tiver uma partícula de vergonha na cara, nunca mais se atreverá a criticar filmes alheios. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não consigo perceber por que são assim as coisas. Nos outros países, fazem-se filmes bons, assim-assim e maus. Em Portugal, quando temos um filme que consegue ser apenas péssimo sem dar ataques de diarreia ao espectador, sentamos o realizador num andor e levamo-lo em cortejo triunfal, abençoado pelo padroeiro destas coisas, São Paulo (Branco).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É claro que a responsabilidade não pode ser atribuída unicamente aos realizadores. Um filme é fruto do trabalho de uma equipa numerosa em que todos os profissionais têm o privilégio de dar o seu contributo para o estragar. E fazem-no com mestria. A começar pelos argumentistas responsáveis pelos diálogos que só não dão vontade de rir quando tentam, e pelos actores (o que seria dos filmes de merda sem actores à altura). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estes podem ser de três tipos. Por um lado, há aqueles que pertencem a uma escola mais realista de interpretação e esforçam-se ao máximo por representar com naturalidade só que, infelizmente, não têm talento para o fazer e falham miseravelmente (Exemplos: Diogo Infante, Fernanda Serrano). Por outro, temos a escola mais clássica, constituída por actores que representam os seus papéis como se estivessem em equilíbrio sobre uma alta coluna de mármore, declamando poesia abstracta turca com os olhos vendados e com alguém a seus pés fazendo-lhes sexo oral (Exemplos: quase todos os actores que apareçam num filme português e tenham menos de 35 anos). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalmente, o grupo mais reduzido é o dos entusiastas que, não sendo actores, ou por convite do realizador, ou de um produtor amigo ou por sugestão própria, decidem dar um arzinho da sua graça no grande écran, provando ao mundo que é possível ser-se irritante no desempenho de várias funções (Exemplos: Catarina Furtado, Anabela Mota Ribeiro). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com isto tudo, sempre que vejo anunciado mais um filme português, e calejado como estou, já não me ocorre pensar “Será bom? Será mau?” porque já sei qual será a resposta. Em vez disso, olho para o cartaz, leio as letras miúdas para saber quem está metido naquilo e tento perceber se o mau cheiro será mais de um tipo sulfuroso, como o cheiro a lodo, ou acre, como o cheiro a vómito.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6678341-108310535701842349?l=atrasado-mental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/108310535701842349'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/108310535701842349'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atrasado-mental.blogspot.com/2004_04_01_archive.html#108310535701842349' title=''/><author><name>Salustio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06790931641188930562</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://2.bp.blogspot.com/_YQWGFPNE2b0/SYBiMPMz2dI/AAAAAAAAA6g/FePjZp0hUO8/S220/maca2.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6678341.post-108216460793390175</id><published>2004-04-17T02:16:00.000+01:00</published><updated>2004-04-17T02:20:47.733+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;b&gt;Um sonho de programa&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os concursos de misses sempre desempenharam um papel de grande importância para a humanidade. Como é sabido, o planeta Terra tem gente a mais e, se chineses, indonésios e indianos (entre outros) continuarem a fazer de conta que não percebem o conceito de “planeamento familiar,” mais cedo ou mais tarde, vamos ter de começar a lutar com os vizinhos até à morte por uns metros de espaço só para nós e para os nossos, mais ou menos como acontece na Costa da Caparica nos meses de Junho a Agosto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É aqui que entram os concursos de misses. A sua função é mais ou menos a mesma das epidemias, das erupções vulcânicas, dos terramotos e das festas da TVI mas de maneira mais civilizada, com menos sangue e de forma mais adequada a esta era de esclarecimento em que vivemos.  Funciona mais ou menos assim. Os concursos de misses são transmitidos pelas estações de televisão e vistos pelos espectadores confortavelmente instalados nos lares respectivos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ora, e aqui está a subtileza, uma percentagem dos espectadores que os vê não o faz por vontade própria mas por contingências várias como, por exemplo, não ter nada melhor para fazer ou para ver, ter de fazer companhia a uma cara metade ou familiar que insiste em ver aquilo, estar entrevado numa cama sem poder mudar de canal e sem poder chamar alguém para o fazer etc. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De entre estes, é altamente provável, que uma boa parte sofra o equivalente cerebral de uma fuga num reactor nuclear. Os efeitos são lentos mas devastadores. O dia há-de chegar em que estes infelizes ponham fim à própria vida e, depois, virão as explicações. Dir-se-á que foi por problemas de dinheiro, familiares, existenciais ou outros. Nada disso. Mataram-se porque, nalgum momento das suas vidas, foram expostos a um concurso de misses. Excepção talvez para o entrevado que continuará entrevado e não poderá praticar o suicídio por razões óbvias apesar de vontade não lhe faltar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No entanto, apesar de os concursos de misses já concentrarem em si uma combinação letal e perfeitamente doseada de estupidez, degradação humana e menear de ancas, o engenho humano arranja sempre maneira de tornar as coisas ainda mais desagradáveis. Por exemplo, transformando a pré-selecção das candidatas a Miss Portugal num reality-show baptizado com o infeliz título “Um Sonho de Mulher.”&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;Poder-se-ia dizer muita coisa a respeito disto. Que é um aproveitamento barato da popularidade do “Ídolos” (devida em parte ao tenebroso júri), recorrendo-se a um júri ainda mais tenebroso. Que é uma maldade. Que ninguém merece ouvir “gosto das pernas mas do pescoço para cima és uma desgraça.” Que ninguém merece ouvir “gosto das pernas mas do pescoço para cima és uma desgraça” e ser forçado a olhar para o focinho de Manuel Serrão ao mesmo tempo. Que é uma maldade. Que não se faz. Que há coisas que ninguém consegue ver. Mas não vale a pena dizer nada disto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Inaugurado que está o precedente, por que não fazer aos elementos do júri exactamente o mesmo que fazem às infelizes que lhes passam pela frente? Com a atenuante de isto ser um recanto obscuro da internet e não a televisão, de não ser visto (lido) por milhões de pessoas e de não dizer estas coisas olhando para a cara das vítimas (sendo precisamente aqui que reside a maior maldade) até porque não seria capaz de o fazer. Bom... ao Manuel Serrão talvez. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vamos por partes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ana Borges é a única dos quatro que deve realmente alguma coisa à beleza. Parece que foi modelo profissional e tudo. Mas quando se tem aquele arzinho de cabra enjoada, não há beleza que resista. Se calhar é frustração. Sabe-se lá se não teria como sonho de infância ser médica ou advogada e nunca se perdoou por ter enveredado por uma carreira onde se progride à custa de broches. Ou, se calhar, estou a ser injusto e aquilo são boas intenções, vontade de afastar jovens incautas do mundo que escolheu para si e encaminhá-las para outros em que não tenham de passar tanto tempo de joelhos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acerca de Xana Guerra nem sei o que diga. Quando alguém se apresenta como consultora de imagem e tem aquela cara e aquele cabelo, algo está muito mal. Mas sou injusto mais uma vez. O cabelo tem um mérito. A franja sempre ajuda a ocultar a cara de quem tem uma farpa de madeira espetada no esfíncter anal. E também é verdade que, do seu palmarés, fazem parte trabalhos como consultora de imagem da TVI e da RTP. Basta olhar para Judite de Sousa ou para Manuela Moura Guedes e explicações adicionais tornam-se dispensáveis. Esta senhora é responsável por alguns dos comentários mais viciosos do programa. Talvez porque até a fanhosa, estrábica, gorda e com aparelho que acha que pode ser miss (e não pode, realmente) tem melhor aspecto do que ela. Rancor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E falando em rancor, também lá está um tal Victor Nobre, produtor de eventos de moda e cachalote mantido em cativeiro. O rancor deste cavalheiro é mais profundo e não se fica por aspectos superficiais de beleza ou falta dela (falta dela, neste caso). O que o incomoda nas candidatas, em todas, mesmo nas que vai poupando, é que não têm pila, uma qualidade com que deve sonhar desde muito novo. É que por mais que tente, por mais farpelas de costureiros famosos que desvie dos desfiles, uma senhora não convence ninguém se tiver... digamos... algo que não deveria ter ali na zona do baixo ventre. É pouco estético e  dá cabo de qualquer vestido de noite. A este senhor ouvi-o perguntar “mas não tem espelhos lá em casa?” E olhando para ele, e vendo aquela cara de poia ressequida com trejeitos de bicha, quase dá vontade de lhe devolver a pergunta com uma ligeira alteração: “Mas não tem raticida lá em casa?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Raticida. Ratos. Bichos feios. Doenças. Pus. Manuel Serrão. Acho que nem Carlos Pinto Coelho conseguiria uma sequência mais perfeita do que esta. O que dizer de alguém com um talento inato para só dizer merda de cada vez que abre a boca ou de cada vez que o deixam passar para o papel o que lhe passa pela ETAR defeituosa que tem dentro do crânio? Que é feio e burro? Ele sabe. Que se veste mal apesar de ser apontado como empresário da moda? Desconfio que também saiba. Que é irritante como um par de cuecas feito de papel vegetal? Já o sabe há muito, está-se nas tintas e até tem nisso um certo orgulho. O que resta? Que tem cara de quem nunca alcançou nada na vida sem ser à custa do nome do paizinho e que, se consegue uns minutinhos de fama de vez em quando que tanto gozo lhe dão, é tudo graças ao senhor doutor, seu pai? Talvez. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E agora, com licença, que vou ali atirar-me do viaduto mais alto que encontrar, evitando assim desgraças futuras provocadas pelas malditas misses. É rápido. Prometo não demorar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah! E a Sílvia Alberto tem coxas de futebolista. Ora toma para perderes o sorrisinho. &lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6678341-108216460793390175?l=atrasado-mental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/108216460793390175'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/108216460793390175'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atrasado-mental.blogspot.com/2004_04_01_archive.html#108216460793390175' title=''/><author><name>Salustio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06790931641188930562</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://2.bp.blogspot.com/_YQWGFPNE2b0/SYBiMPMz2dI/AAAAAAAAA6g/FePjZp0hUO8/S220/maca2.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6678341.post-108163578866456564</id><published>2004-04-10T23:23:00.000+01:00</published><updated>2004-04-11T14:03:08.950+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;b&gt;A evolução na revolução&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gosto muito dos novos cartazes comemorativos do 25 de Abril. Para quem ainda não os viu, fica uma breve descrição: fundo branco, quatro imagens do mesmo cravo manipuladas digitalmente e coloridas com cores berrantes dispostas de forma a simular um quadro de Andy Warhol; uma inscrição a preto dizendo “Abril é Evolução” com a palavra “Evolução” em bold; por baixo, noutra cor, os dizeres “30 anos.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E depois de ler a explicação de Nuno Morais Sarmento sobre o “conceito” das comemorações deste ano, fiquei a gostar ainda mais. Diz assim o nosso ministro da Presidência: “Os valores da Liberdade, da Democracia, do Progresso Económico e Social, não são compatíveis com comemorações rotineiras e enquadradas em considerações meramente ideológicas.” &lt;br /&gt;Concordo plenamente. E não é só por saber que estas palavras foram ditas pelo único membro do governo capaz de me partir o nariz com um murro e também o primeiro a ter feito alguma coisa de útil (quando arrumava carros para sustentar o vício da droga) desde que um ministro da Primeira República decidiu afogar-se no Tejo no longínquo ano de 1921. Há aqui um grande fundo de argúcia e audácia política. Tão fundo como a garganta de Paulo Portas e tão grande como a sua cavidade rectal. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As comemorações do passado davam ênfase aos aspectos revolucionários do 25 de Abril. Ora isto não é positivo. As revoluções não são coisas agradáveis e não devem ser promovidas de forma descarada. Costuma haver violência (mais do que a violência que houve na nossa revoluçãozita), dá-se cabo do status quo, obriga-se a remodelações em vários sectores da vida pública, há perseguições de pessoas ligadas ao regime anterior e uma série de pormenores desagradáveis do género. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vejamos o caso específico da revolução a que alguém decidiu chamar “dos cravos” (porque algumas revoluções ainda vão conseguindo ter nomes bonitos). Em primeiro lugar, os portugueses passaram a ter a obrigação de ir votar, o que é uma grandessíssima chatice, apesar de tudo o que possam dizer. Uma pessoa está sossegada em casa a ver a fórmula 1 na televisão e tem de levantar o traseiro do sofá e ir para uma escola secundária com telhados de lusalite e infiltrações, esperar numa fila para pegar numa esferográfica BIC roída e fazer uma cruz num papel. Felizmente que o voto em Portugal não é obrigatório como noutros países e os portugueses, com o passar dos anos e o esbatimento da novidade, perceberam que participar no processo democrático não tem metade da piada de comer amendoins e beber cerveja enquanto se vê o Schumacher a ganhar mais uma.  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois há a questão da responsabilidade. Uma coisa é ser governado por um ditador e poder pensar “isto assim é tramado mas uma pessoa também não pode fazer nada, paciência” e outra é acharmos que, se somos governados por bandos de imbecis que vão alternando nos diversos poleiros e que se dedicam a arranjar maneiras criativas de nos foder a vida (caso hipotético, longe de mim dizer que é isto que acontece no nosso querido Portugal), é por nossa culpa, “nossa” enquanto povo, e que, mesmo que não tenhamos votado naquele grupo de imbecis específico, temos de viver rodeados por pessoas que o fizeram e, pior ainda, por pessoas que o fizeram e não se arrependem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E não nos podemos esquecer do respeitinho. Antes do 25 de Abril, havia respeito. Não é como agora que toda a gente pode dizer o que lhe passar pela veneta, podem andar para aí a escrever o que bem lhe apeteça, a falar mal de pessoas importantes e que só querem o nosso bem, a não ir à missa (!) ou a fazer abortos a torto e a direito como quem come tremoços. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por tudo isto, as revoluções, mesmo aquelas em que os revolucionários têm o bom senso de fazer asneiras para não parecerem os salvadores da pátria (como sucedeu por cá, onde a revolução que agora se comemora foi generosa em asneiras), são perigosas e devem ser evitadas a todo o custo. Ainda por cima, porque parece mal. Dão-nos ar de arruaceiros e gente sem moral que queima soutiens e corta cabeças e faz barricadas e assim. É uma coisa terceiro-mundista. Que haja revoluções na Guiné ou na Venezuela ou nas Ilhas Fiji está bem. Agora cá não. Estamos na Europa. Somos um país sério e venerando. Estamos entre os quinze países mais prósperos e desenvolvidos da Europa. Raios, nós vamos organizar um campeonato europeu! Nem a Guiné, nem a Venezuela, nem as Ilhas Fiji se podem orgulhar do mesmo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O novo “conceito” das comemorações do 25 de Abril proposto pelo governo vai deixar muita gente mal-intencionada a pensar que é só uma manobra descarada para tentar camuflar uma história que já nem é tão recente como às vezes se pensa (30 anos é muito ano) porque é um facto que são os partidos da oposição, da chamada “esquerda,” que mais beneficiam com os aspectos folclóricos das comemorações da revolução e que mais a podem usar em benefício próprio, até porque é nos partidos da chamada “esquerda” que se concentram as pessoas que a fizeram ou que ajudaram a fazê-la (salvo algumas excepções, como, por exemplo, Adriano Moreira, que tanto queimou as pestanas a fazer murais clandestinos). Pessoalmente, acho que não têm razão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É tempo de mudarmos a nossa maneira de ver as coisas e de fazermos do bom senso uma imagem de marca dos portugueses, juntamente com os bigodes, a sinistralidade rodoviária e os futebolistas violentos. Chega de comemorar insurreições armadas. Chega de mostrar fotografias às criancinhas de tanques e soldados com flores enfiadas nas metralhadoras. Já chateia.  E se alguém não gosta do que eu digo, que se vá queixar à PIDE. O quê? Já não há PIDE?... A culpa não é minha, pois não?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6678341-108163578866456564?l=atrasado-mental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/108163578866456564'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/108163578866456564'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atrasado-mental.blogspot.com/2004_04_01_archive.html#108163578866456564' title=''/><author><name>Salustio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06790931641188930562</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://2.bp.blogspot.com/_YQWGFPNE2b0/SYBiMPMz2dI/AAAAAAAAA6g/FePjZp0hUO8/S220/maca2.jpg'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-6678341.post-108077032614347677</id><published>2004-03-31T22:58:00.000+01:00</published><updated>2004-04-02T17:43:08.686+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;b&gt;A televisão de todos nós&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passei meses angustiado com aquilo. Que a RTP estava a mudar, sabia eu muito bem, até porque, de quinze em quinze minutos na emissão da “nossa televisão,” alguém se encarregava de mo lembrar. Mas a mudar como? E em quê? Parecia-me tudo na mesma. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Fernando Mendes lá continuava a tentar aguentar a barriga na vertical durante a duração do “Preço Certo,” lutando ao mesmo tempo contra a vontade de engolir a montra de prémios completa com trem de cozinha, jetski e tudo. À tarde, José Carlos Malato continuava com Portugal no coração, acompanhado por uma Merche Romero viçosa que, para além de também ter Portugal no coração, de certeza conseguirá arranjar outra parte do corpo para acomodar a sua Andorra natal, já que esta, pelo tamanho diminuto e apesar de os países não se medirem aos palmos, cabe em qualquer cantinho (com a lubrificação adequada.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O nariz de Júlio Isidro continuava imponente, o sentido de oportunidade de Sónia Araújo continuava afinado, a hilariante dupla Guilherme Leite-Luís Aleluia continuava a produzir material de levar às lágrimas qualquer contribuinte cumpridor, e até Francisco Mendes continuava a cumprir na perfeição o seu papel de filho de cantor famoso que ganhou um concurso num canal da concorrência e agora parece que apresenta não sei o quê por alma não sei de quem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Onde estava, afinal, a diferença, perguntava-me eu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora já sei. Estavam só à espera do 47º aniversário da RTP para nos maravilharem a todos com a magnitude das alterações que fazem da “nossa televisão” ainda mais “nossa” e ainda mais “televisão” (se alguém quiser aproveitar este slogan para spots promocionais, é favor contactar o 915550192). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para começar, as novas instalações. O edifício sinistro e kafkiano da Avenida 5 de Outubro passa à história, substituído por um iluminado e arejado complexo no Parque das Nações. Para trás, ficam décadas de história com momentos tão marcantes como a inauguração das emissões a cores, o caso Manuel Subtil ou aquela notícia convenientemente abafada, ainda que verídica, do entupimento das canalizações do edifício provocado por uma acumulação monumental de preservativos deitados pela sanita abaixo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O nome e o logotipo também não resistiram à onda de mudança. A empresa passou a chamar-se “Rádio e Televisão de Portugal,” engolindo a RTP e a RDP (esperemos que a RDP atinja rapidamente os padrões de qualidade e “serviço público” a que a RTP nos tem habituado). O logotipo ficou mais moderno. Mais... pujante. Gostava de o ver tatuado numa nádega de Serenella Andrade para melhor poder apreciar a modernidade do traço (desde que o seu pai, o director de programas, Luís Andrade, o autorize, claro está). &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas as mudanças não se ficam por aqui. Depois há as outras, de natureza mais conceptual. Dizem vocês: “Mais mudanças ainda?! Mas esta gente quer fazer alguma revolução? Os portugueses não estão preparados para tanta mudança!” Estão pois. Quem aguenta Cavaco Silva como primeiro-ministro durante tanto tempo, está preparado para isso e para muito mais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de muitas horas de “brainstorming,” os especialistas contratados pela RTP para idealizar a mudança da estação, terão chegado a uma conclusão que só pode ser classificada como brilhante. Puseram tudo em papel. Enfiaram os preservativos pela sanita abaixo, puxaram o autoclismo e foram apresentar os resultados à administração. A solução era perfeitamente óbvia. A “nossa televisão” só precisa de passar mais tempo a falar de si própria e a louvar as suas qualidades. Era só isso que faltava. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Afinal de contas, a programação de qualidade já eles têm há muito com a conjugação ideal de decotes de Catarina Furtado com meios sorrisos de Jorge Gabriel (ambos pagos a peso de platina), aliada à estridência desafinada das “melhores vozes de Portugal,” aos olhos de coruja embalsamada (e com uma ressaca monumental) de Dani ou a programas do mais puro serviço público sobre, por exemplo, a história da RTP, as culpas de Emídio Rangel no estado a que a RTP chegou, a inocência de todos os outros culpados, os programas que a RTP fazia e que só agora se percebe que não eram nada chatos e enfadonhos e até educavam o povinho ou os programas que a RTP poderia vir a fazer no futuro mas não vai fazer porque não sabe como mas até fica sempre bem dar a entender que se tem projectos e que se pretende mesmo cumpri-los. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Com que então, temos de falar mais na estação, não é?” terá perguntado o senhor administrador, ao que um dos “brainstormers,” algo melindrado por não conseguir perguntar por gestos ao membro do conselho de opinião mais próximo se tinha um preservativo à mão que lhe emprestasse, respondeu que sim senhor, que o português médio de classe média-baixa não tem grande sentido crítico e que, como tal, basta repetir uma coisa o número de vezes suficientes que ele acaba por começar a acreditar. “É limpinho, senhor administrador.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vai daí, foi só olhar para a grelha de programas e procurar um sítio onde desse para encaixar mais uns minutinhos de auto-promoção, o que deu algum trabalho porque, entre spots promocionais de 15 minutos subordinados aos temas “a RTP faz do mundo um sítio melhor,” “a RTP traz felicidade,” “a RTP aumenta o prazer sexual” ou “quem vê a SIC e a TVI é responsável pela morte de duas criancinhas em África a cada dez minutos” e os programas de tributo aos grandes profissionais que fizeram o passado glorioso da casa como o senhor Armando que uma vez apertou um parafuso na cadeira do professor Marcello (o outro, o que mandava mesmo) e evitou um escândalo,  sobrava muito pouco espaço. Mas lá se conseguiu porque, quando a boa vontade existe, não há nada que uma pessoa não consiga mesmo que seja pôr a Luísa Castel-Branco a apresentar um concurso com perguntas de cultura geral. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E aí a temos. Renovada, fresca e a cheirar a cidadania. A nossa televisão. A nossa RTP. Sem taxas, com séries históricas assinadas por Moita Flores com muita actriz de mamas ao léu, com logotipo novo e a prometer um futuro grandioso. Resta desejar que as novas instalações contribuam para mais 47 anos de serviço público e que os canos não entupam tão facilmente. Parabéns, RTP. &lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/6678341-108077032614347677?l=atrasado-mental.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/108077032614347677'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/6678341/posts/default/108077032614347677'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://atrasado-mental.blogspot.com/2004_03_01_archive.html#108077032614347677' title=''/><author><name>Salustio</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06790931641188930562</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://2.bp.blogspot.com/_YQWGFPNE2b0/SYBiMPMz2dI/AAAAAAAAA6g/FePjZp0hUO8/S220/maca2.jpg'/></author></entry></feed>
